REUTERS/Diego Vara
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Ressalvas de Bolsonaro à China poderão ser superadas com diálogo, diz diplomata chinês

Segundo representante de Pequim, fala de Bolsonaro de que chineses estariam 'comprando o Brasil' refletem 'falta de conhecimento do conteúdo estratégico de nossa parceria'

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2018 | 13h19

BRASÍLIA - As ressalvas do candidato do PSL, Jair Bolsonaro, aos investimentos chineses refletem "falta de conhecimento do conteúdo estratégico de nossa parceria", disse nesta quinta-feira, 25, o ministro-conselheiro da Embaixada da China no Brasil, Qu Yuhui, durante entrevista para divulgar a Feira Internacional de Importação da China, que será realizada em Xangai entre os dias 5 e 10 de novembro. 

Bolsonaro disse que não venderia ativos de geração de energia a investidores chineses e acrescentou que eles estão "comprando o Brasil".

"Estamos abertos para conversar com qualquer político que esteja disposto a fortalecer nossa parceria", afirmou. "O novo governo vai ter uma nova agenda e vamos precisar de um período de adaptação."

Ele deixou claro, porém, que a questão de Taiwan é um tema sensível para o país e para o povo chinês. "É uma questão de soberania", afirmou. 

O comentário foi feito ao ser questionado sobre a visita que Bolsonaro fez a Taiwan no início deste ano. A China considera o país parte de seu território, o que também é reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) com apoio do governo brasileiro.

"Não vejo nada que tenha fundamento substancial para criticar a nossa parceria", afirmou o diplomata. "Nosso desejo com próximo governo é que siga a trajetória de crescimento na parceria, que beneficia muito os dois povos." 

Demorou e perdeu espaço

Durante a entrevista concedida nesta quinta-feira, a ministra-conselheira para assuntos Econômicos e Comerciais da Embaixada da China,

Xia Xiaoling, afirmou que o Brasil precisa promover mais seus produtos. Ela se referia a participação brasileira na Feira Internacional de Importação da China, que será realizada nos próximos dias 5 a 10 de novembro, em Xangai, apontada nos meios especializados como um "game changer" no comércio internacional.

A feira contará com 2.800 empresas expositoras. A China precisará importar US$ 10 trilhões em produtos nos próximos cinco anos, informou a diplomata.

O Brasil contará com uma área de 1.849 metros quadrados, embora pudesse ter muito mais, disse Xia. Ela contou que os brasileiros demoraram a solicitar espaço na feira e, quando o fizeram, já não havia mais. Houve um esforço por parte da embaixada e do ministério das relações exteriores chinês para conseguir o espaço. O Brasil contará, além do mais, com 256 metros quadrados cedidos gratuitamente pelo governo chinês para a exposição oficial.

"Embora nesse momento a China importe mais soja, petróleo e minérios do Brasil, há aqui produtos de maior valor agregado e a China precisa comprá-los", afirmou. 

Ela citou como exemplo os aviões da Embraer, os biocombustíveis, e os veículos flex, que podem ter um bom mercado nesse momento em que a China precisa aumentar seu consumo de etanol.

E outros produtos nem tão conhecidos do consumidor chinês, como o vinho, a cachaça, o "melhor chocolate do mundo", derivados de leite, além de produtos de moda, como vestuário e calçados. 

"As delegações que vêm da China fazem muitas compras na loja da Melissa", contou. O interesse é tanto que, segundo ela, empresários chineses promovem e comercializam produtos brasileiros em seu país.

"O que falta ao Brasil é divulgação, é dar a conhecer seus produtos", disse. "A China tem 1,3 bilhão de consumidores e esse é um mercado enorme que o Brasil não pode perder."

Em meio à guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, empresas norte-americanas estarão presentes à feira. Questionada se o objetivo do evento e da política de abertura comercial da China seria reduzir o tão criticado superávit com seus parceiros, a diplomata deu outra explicação. "Não é para diminuir o superávit, e sim para abrir e compartilhar nosso mercado", afirmou.

Xia informou que a decisão de realizar a feira foi tomada no ano passado. "Nessa altura, a guerra comercial (com os EUA) ainda não era como hoje, não estava em fase de crise", comentou. A iniciativa foi anunciada em maio de 2017, durante um fórum da iniciativa "Um cinturão, uma rota", para cooperação internacional da China. "É muito raro a China promover um foco com foco em importação", disse. "A exposição é um esforço da China para abrir seu espaço ao mundo."  

Brasil neutro

Na última terça-feira, 23, o conselheiro para temas de economia internacional e comércio do eventual superministro de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, o professor da Universidade Columbia Marcos Troyjo também falou sobre o relacionamento do Brasil com a China no caso de um eventual governo do PSL.

Segundo ele, o Brasil deveria se manter neutro na guerra comercial entre os Estados Unidos e o gigante asiático. Em vez de escolher um lado, Troyjo afirmou que o Brasil deve explorar as oportunidades oferecidas pelos dois.

“A suposta guerra comercial é mais um movimento de acomodação do que algo que vá escalar outras áreas para além da economia e, portanto, tornar necessário fazer algum tipo de alinhamento”, disse. “Ter de escolher lados de maneira automática e irreversível não é olhar esse quadro de maneira realista.”

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