Ressurgimento do vinil abre mercado para startups

Com falta crônica de maquinário para fabricantes de LPs, empresas desenvolvem prensas e inovam na masterização

The Economist

04 Junho 2017 | 05h00

 

Para os jovens hipsters, assim como para os sentimentalistas de meia-idade, o ressurgimento dos discos de vinil é motivo de celebração. De 2010 para cá, as vendas de LPs triplicaram nos Estados Unidos. No Reino Unido, o setor obteve em 2016 seu maior faturamento nos últimos 25 anos. Os hipermercados vêm aumentando o espaço reservado à venda de discos e as vitrolas entraram para as listas de itens mais vendidos da Amazon.

Não tem sido fácil atender essa demanda. Os discos de vinil representavam 76% das vendas da indústria fonográfica em 1973; em 1994, com a ascensão dos CDs, sua participação se reduziu a 1,5%. Nessa altura, o grosso das fábricas de vinil havia fechado as portas e suas pesadas prensas hidráulicas jaziam abandonadas em ferros-velhos. Foram muito poucos os fabricantes que se mantiveram em atividade — basicamente, os que conseguiram se diversificar e entraram em novas áreas de impressão e produção. Mesmo nesses casos, porém, não houve mais investimentos em vinil, de modo que as poucas máquinas que continuam em funcionamento com frequência datam dos anos 1960.

A GZ Media, empresa checa que é a maior fabricante de vinil do mundo (responsável por cerca de 60% da produção total) e em 1987 punha anualmente no mercado mais de 13 milhões de discos, em 1993 fabricou apenas 200 mil LPs. Os pedidos voltaram a crescer substancialmente há dez anos, e agora as prensas da fabricante operam a pleno vapor, devendo produzir 24 milhões de discos de vinil em 2017.

Apesar de o vinil representar fração muito pequena do mercado global de música, as gravadoras inundam as poucas fabricantes ainda em atividade com encomendas volumosas, provocando atrasos na produção. A GZ Media só consegue atender os pedidos que recebe porque, desde 2014, passou a reformar e modernizar suas prensas mais antigas. Outras fabricantes também vêm aumentando sua capacidade de produção. Nos últimos anos, surgiram mais de dez fábricas de vinil na América do Norte, na Europa e em outros continentes.

A maior dor de cabeça é a falta crônica de maquinário. São comuns as histórias de gente que corre o mundo atrás de uma prensa antiga. Isso tem impulsionado os investimentos em novas opções. A Nordso Records, que inaugurou sua fábrica no ano passado, em Copenhague, na Dinamarca, optou por um novo modelo de prensa hidráulica, projetado pela Newbilt, uma startup alemã. A Newbilt já vendeu 25 dessas prensas para diversos países da Europa, a um preço de até € 500 mil (US$ 554 mil) cada. Como são manuais, elas precisam ser supervisionadas por um operador em cada etapa do processo, produzindo até 400 discos por dia.

Numa escala mais industrial, em 2015 a startup canadense Viryl Technologies começou a fabricar prensas, capazes de produzir até 1,2 mil discos num turno de oito horas. Há unidades em operação na América do Norte, Europa e Ásia.

Algumas dessas startups, que também oferecem manutenção para as prensas hidráulicas, acreditam que há margem para inovação no processo de masterização, isto é, a transferência do registro musical gravado para a matriz a partir da qual serão produzidas as cópias subsequentes. Um dos métodos envolve o corte de sulcos num disco de acetato, mas no mundo inteiro só duas empresas fabricam esses discos (uma é comandada por um velho casal japonês, que vive em Tóquio), e aqui também a produção não dá conta de atender a demanda. Uma segunda técnica utiliza matrizes de cobre, cuja oferta é mais abundante; mas há restrições, uma vez que o número de máquinas que fazem o “corte” desses discos é limitado: das 25 existentes em todo o mundo, quatro pertencem à GZ Media.

No ano passado, a empresa austríaca Rebeat Digital requereu a patente de uma tecnologia de masterização de “discos de vinil de alta definição”. O método produz uma imagem gerada por computador das músicas, antes de entalhar seu sinal sonoro a laser na matriz de acetato (em vez de utilizar uma agulha de corte). A empresa diz que isso reduz em 60% o tempo necessário para a produção de uma matriz. Mas os fãs do vinil ainda têm dúvidas sobre a qualidade sonora dos LPs produzidos com essa técnica.

Mesmo que a moda do vinil venha a perder um pouco de seu embalo atual, a manutenção das prensas em operação, assim como o fornecimento de peças sobressalentes, deve continuar abastecendo o caixa das startups. É pouco provável que a produção de LPs venha a ser totalmente interrompida, como no passado se imaginou. Muitos entusiastas do vinil hoje compram seus “bolachões” pelo Spotify, depois que, em 2014, o serviço de música por streaming passou a permitir que os músicos comercializassem mercadorias físicas em suas páginas de perfil. Outro indício promissor é o de que há mais jovens do que puristas cinquentões participando da onda: metade de todos os usuários que compram um LP pelo Spotify já o escutaram antes, online.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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