Restauração do patrimônio pode ser um bom negócio

As grandes obras de restauração do patrimônio histórico, que só no centro de São Paulo consumiram R$ 300 milhões nos últimos três anos, podem encher os olhos das empresas de construção civil e parecer uma boa solução para diversificar negócios e ganhar visibilidade, mas exigem planejamento cauteloso. A maioria dos grandes players do setor avalia esse nicho como uma alternativa a ser explorada esporadicamente e não como garantia de uma parcela fixa do faturamento. "É uma oportunidade que não pode ser desprezada, mas não dá para ser o foco", diz o vice-presidente de construção da Método, Antônio Sílvio Messa. Segundo ele, entrar neste ramo exige know how para o trabalho e habilidade para driblar imprevistos. "O trabalho é tão específico que é difícil, até mesmo, orçar uma obra", conta."No caso do Centro Cultural do Santander (no antigo prédio da Alfândega em Porto Alegre), quebraram-se 80 das 800 peças fabricadas em 1930. Precisamos colocar modelos no avião em uma sexta-feira, trazer para São Paulo, fazer réplicas e estar com tudo de volta na terça-feira. Isso porque o presidente mundial do banco viria para a inauguração do espaço no dia seguinte", exemplifica. "É claro que esse custo não estava previsto no orçamento", diz.Até mesmo em Estados com maior quantidade de monumentos e logradouros históricos, a situação não é muito diferente. No caso da construtora baiana com filial no Rio de Janeiro Sertenge, que participou de duas das seis etapas de restauração do Pelourinho, as obras chegaram a representar 25% do faturamento mensal, mas há um ano a empresa não atua neste nicho, desde que o processo foi paralisado."A restauração e reparo dependem, geralmente, de uma dotação do orçamento dos governos e ela não é significativa", afirma o diretor-superintendente da construtora, Luiz Fernando Pessoa.Pessoa garante, no entanto, que a empresa irá participar da sétima e última etapa de restauração do Pelourinho, com edital previsto para maio, de acordo com o coordenador executivo do Centro Histórico de Salvador, Maurício Araújo. "Na última etapa das obras, estamos desenvolvendo o projeto de adaptação das casas para moradia", conta Araújo. A restauração das residências será financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), dentro do projeto Monumenta.O mesmo projeto vai financiar a restauração de prédios considerados de valor histórico em 15 ruas do centro de Porto Alegre. A prefeitura encerrou na semana passada o prazo para recebimento de propostas, representando mais uma oportunidade de negócios neste nicho. O financiamento para os proprietários dos imóveis com valor histórico terá carência de 15 anos e juro zero.Entre os beneficiados com recursos estão os prédios dos cines Imperial e Guarani, do Hotel da Matriz, do GBOEX e do Clube do Comércio. O limite de crédito concedido pelo BID será definido por técnicos da prefeitura e depende da capacidade de endividamento de cada proprietário.Falta de incentivos Para o vice-presidente do Sinduscon de São Paulo, João de Souza Coelho Filho, as restaurações de imóveis não deslancham como negócio atrativo para o segmento de construção por falta de apoio necessário dos governos. "Na França, onde o assunto é tratado com o máximo de seriedade e representa boa parte da atração do segmento de turismo, a restauração de imóveis com relevância histórica chega a representar 50% do faturamento de construtoras", afirma.No Brasil, segundo Coelho Filho, os grandes investidores na recuperação do patrimônio histórico hoje são instituições financeiras. "O Estado entra apenas com a isenção de impostos", conta. Para o vice-presidente do Sinduscon, no centro da cidade de São Paulo, pelo menos por enquanto, as ações de revitalização estão ligadas à recuperação de edifícios para moradia popular. "Em países desenvolvidos, o poder público atua na infra-estrutura, como na construção de garagens subterrâneas, para que o comércio central se mantenha atrativo para novos investidores", acrescenta. Messa, da Método, diz que as empresas que atuam neste segmento geralmente contam com mão-de-obra terceirizada para a maioria dos serviços. "Na França, são cerca de 300 mil microempresas que prestam serviços especializados para as companhias do setor de construção civil", compara. "Aqui no Brasil, se as empresas dão treinamento e mantêm mão-de-obra independente da demanda, acabam jogando dinheiro fora", diz o empresário.Segundo ele, a companhia sabe quem são os arquitetos, projetistas e players com esse know how diferenciado. "São cerca de 30 profissionais altamente especializados em restauro de imóveis no Brasil e, quando precisamos desse tipo de mão-de-obra, nós os contratamos como prestadores de serviço", conta. A Método começou a atuar no nicho de recuperação do patrimônio histórico em 1986, com a reforma do Teatro Municipal, no centro de São Paulo. Restaurou também o Teatro José de Alencar, em Fortaleza, o Teatro São Pedro, o Palácio da Justiça e o Palácio das Indústrias, em São Paulo. RetornoNa avaliação do executivo da Método, se alguma empresa de grande porte quiser se especializar no ramo, não irá obter retorno. Segundo ele, a companhia já tentou, inclusive, a montar uma equipe para prospectar projetos e tentar alinhavar investimentos com recursos da iniciativa privada, mas o grupo de trabalho foi desfeito. "No começo ficávamos eufóricos, mas hoje não é mais assim", revela. Para Messa, na maioria dos casos há uma lacuna entre o capital e a obra. "Falta quem faça a ponte", avalia.Em São Paulo, o Viva o Centro ? projeto que une empresas e bancos para a recuperação urbana no centro da cidade de São Paulo ? tenta preencher essa lacuna. Com incentivo desse movimento, foram criadas 44 entidades independentes para estimular ações de revitalização da área. Uma delas, por exemplo, conseguiu seduzir a indústria alimentícia Quaker a investir na reforma da uma praça que cerca a Biblioteca Municipal. A indústria de papel e celulose Klabin, por sua vez, restaurou a Fonte do Desejo, também perto da biblioteca. Quando souberam, por exemplo, que o ex-governador Mário Covas estava interessado na mudança de uso da estação Júlio Prestes, os integrantes do Viva o Centro conseguiram que algumas empresas bancassem o projeto de cerca de R$ 4 milhões ?recursos da época. A estação, parte do complexo que agrega o prédio do antigo Dops, transformou-se na melhor sala de concertos de toda a América Latina. Segundo executivos ligados ao setor, outro inibidor para investimentos maciços na recuperação do patrimônio é a dificuldade em quantificar o retorno institucional dos investimentos. "Investimos na restauração do patrimônio porque vemos esse tipo de gasto como algo com retorno social e não como uma ação de marketing", afirma a gerente de relações externas e comunicação da Alcan, Eunice Lima. Ela afirma que a empresa, que está ligada a diversas obras na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, como a igreja de São Francisco de Assis, não saberia como medir o retorno de marketing do investimento.Para ler mais sobre o setor de Construção Civil, acesse o AE Setorial, o serviço da Agência Estado voltado para o segmento empresarial.

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