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Restaurantes deixam de aceitar pagamento em dinheiro nos EUA

Estabelecimentos dão preferência a pagamentos com cartões de crédito, débito e aplicativos de pagamento online,que dão às empresas dados e feedback dos consumidores

Gloria Dawson, The New York Times

04 de agosto de 2016 | 10h53

Os clientes da Sweetgreen são bastante exigentes em relação às suas saladas. Quando a empresa retirou recentemente o bacon e o molho sriracha do cardápio, os clientes recorreram às redes sociais para reclamar. Mas depois que alguns restaurantes da rede Sweetgreen deixaram de aceitar dinheiro em espécie em janeiro deste ano, quase ninguém percebeu a mudança de acordo com os donos da empresa.

Até mesmo os executivos da Sweetgreen acharam que parar de aceitar dinheiro era um “ideia de jerico” no começo, afirmou Jonathan Neman, um dos fundadores e chefes-executivos da empresa. “Mas demos uma olhada ao redor e percebemos que as companhias aéreas já não aceitam dinheiro há um bom tempo, por exemplo.” Em endereços da Sweetgreen nos Estados Unidos, as vendas em dinheiro caíram para menos de 10% hoje, comparadas com 40% de todas as transações quando eles abriram a primeira loja há nove anos. A Sweetgreen conta agora com 48 lojas.

Embora os EUA estejam longe de se tornar uma sociedade livre do dinheiro, as transações em espécie são menos frequentes do que há alguns anos, e alguns donos de restaurante estão apostando que os clientes vão achar mais conveniente deixar de usá-lo.

Restaurantes como o Sweetgreen dão preferência a pagamentos com cartões de crédito, débito e aplicativos de pagamento online. Os aplicativos permitem que os restaurantes recebam dados e feedback, além de permitir que os consumidores peçam com antecedência e escapem das filas longas.

“Uma das maiores reclamações na Sweetgreen são as filas, por isso, ao reduzir o fluxo de dinheiro, somos capazes de servir nossos clientes muito mais rapidamente”, afirmou Neman. Nas seis lojas da Sweetgreen onde o dinheiro deixou de ser aceito, os funcionários são capazes de realizar de 5 a 15 por cento mais transações por hora, afirmou.

Em um ambiente livre de dinheiro, os funcionários também ficam mais seguros, afirmou Neman. Foram registrados poucos casos de furto e roubo desde que a Sweetgreen abriu as portas pela primeira vez, mas o executivo acredita que a ausência de dinheiro em espécie ajudou a afastar os bandidos. “Não acho que alguém queira roubar acelga.”

Porém, deixar de aceitar dinheiro também traz alguns problemas. Muitos norte-americanos ainda preferem utilizar dinheiro, seja por ideologia, ou falta de alternativa. Um estudo realizado em 2015 pelo Banco Central norte-americano sobre as preferências de pagamento dos americanos revelou que, embora o uso de cartão de crédito não pare de crescer, 26 por cento de todas as transações ainda são realizadas em dinheiro. Essas transações costumam ter valor mais baixo.

Os pagamentos com aparelhos móveis também devem continuar a crescer. A Forrester Research prevê que o pagamento com aplicativos móveis gere US$34 bilhões em 2019 nos EUA, ao invés dos US$4 bilhões registrados em 2014. A Sweetgreen conta com um aplicativo próprio, que permite que os clientes façam o pedido e o pagamento. As compras realizadas no aplicativo da empresa já representam um terço das transações, afirmou Neman.

Outra desvantagem da ausência de dinheiro nos restaurantes é o fim do anonimato. Os cartões de crédito e aplicativos deixam uma trilha digital que pode tornar os clientes vulneráveis a falhas de segurança, algo que preocupa os defensores da privacidade. Um ambiente sem dinheiro também exclui pessoas que não têm conta em banco e representam quase oito por cento da população dos EUA, de acordo com a Federal Deposit Insurance Corp.

Pagar com dinheiro também pode ajudar os consumidores a gastar menos e ter uma percepção mais realista do valor de suas compras, de acordo com estudos recentes.

As pessoas pobres e sem conta em banco são uma preocupação para a Sweetgreen, afirmou Neman. Caso o experimento passe a ser adotado em toda a empresa, ela pensa em soluções para tornar seus produtos acessíveis para aqueles sem cartão de crédito e débito. Uma possibilidade é a instalação de máquinas de cartão de presente em algumas lojas, onde os clientes podem usar dinheiro para comprar cartões pré-pagos da Sweetgreen, afirmou.

Foi pensando nas pessoas sem conta em banco que a Bozzelli’s Deli & Pizza flexibilizou sua política de pagamento depois de abrir uma loja sem dinheiro em Washington este ano, afirmou o proprietário, Mike Bozzelli.

Um pequeno grupo de clientes levou a Split Bread, uma rede de lanchonetes com duas lojas em San Francisco, a mudar a política de pagamentos dois anos depois da abertura das lojas em 2012. “Quando as reações eram negativas, elas eram bastante enfáticas. É muito difícil mudar as preferências dos clientes quando o assunto é algo tão arraigado quanto o dinheiro”, afirmou David Silverglide, um dos fundadores e executivo-chefe da Good Food Guys, a empresa proprietária da Split Bread.

“Acredito que eles estavam um passo à frente”, afirmou Sam Oches, editor da revista de restaurantes rápidos QSR, a respeito da Split Bread. Talvez seja mais simples para a Sweetgreen este ano por conta do aumento no uso de aplicativos e em função da popularidade da marca. “A Sweetgreen é um exemplo do futuro dos restaurantes de fast-food casuais. Se existe uma empresa capaz de fazer isso dar certo, com certeza são eles”, afirmou Ochoes.

Para o Major Food Group, que controla diversos restaurantes em Nova York, deixar de aceitar dinheiro é uma simples decisão comercial.

Quando o grupo abriu o Sadelle’s no ano passado, os críticos elogiaram os pães e reclamaram do preço dos sanduíches, mas falaram muito pouco a respeito do fato de a empresa não aceitar dinheiro. “Não é um problema e raramente alguém fala a respeito disso”, afirmou por e-mail Jeff Zalaznick, um dos donos e executivos da empresa.

“Acredito piamente que vale a pena deixar o dinheiro de lado. Existe muito trabalho, processos e erros quando o aceitamos, processamos, monitoramos e depositamos. A quantidade de tempo e dinheiro investido nisso não compensa mais se levarmos em conta o volume de negócios realizados em espécie. As taxas adicionais que pagamos para realizar as vendas por cartão de crédito são muito menores que o dinheiro que precisamos gastar para receber em dinheiro”, afirmou Zalaznick. Ainda segundo ele, menos de oito por cento das vendas feitas no grupo de restaurantes recebe pagamento em dinheiro.

A Sadelle’s não é a primeira tentativa do Major Food Group de abandonar o dinheiro. O ZZ’s Clam Bar, que abriu as portas há três anos, também não aceita dinheiro.

“Esse é o caminho do futuro, e queremos fazer parte dele”, afirmou Zalaznick.

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