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Restrições reais ao crescimento

A economia real é a grande mestra da política econômica. A teoria tolera desaforos. A evidência empírica admite qualificações, especialmente em uma disciplina não experimental, que depende de dados históricos e não de laboratório controlado. E a História sempre está disposta a fornecer, se tratada com o devido carinho, "comprovações" para as idéias mais esdrúxulas. Cacos de fatos podem ser espremidos até produzir suco de uva. O resto é deixar as ideologias e os interesses fermentarem as interpretações que embriagam os incautos. Mas o diabo da realidade é a ressaca.Não dispomos de uma teoria do crescimento econômico que nos permita calcular o quanto podemos crescer nos próximos 2 a 5 anos. O produto potencial é uma idéia útil, mas o cálculo é precário. A teoria permite apenas tirar, dos modelos, conclusões práticas acerca do que não fazer. Este descarte do que é inviável já deveria ajudar a eliminar o lixo que o grande público consome à guisa de "política de crescimento". O problema é que a teoria é vaga demais em matéria de política, quando se tenta ir além de propostas como a promoção da educação e da inovação tecnológica. Quando descemos aos problemas dos incentivos, os modelos de comportamento dos agentes são precários. Em nível macroeconômico, questões elementares, como a relevância ou não da restrição da poupança para limitar a capacidade de gerar riqueza não humana, tumultuam a análise das possibilidades de crescer. É comum a interferência do conhecimento mal digerido, como as interpretações "keynesianas" (as aspas são por respeito à memória de Maynard Keynes). Construída para uma economia presa em uma armadilha depressiva, impossibilitada de utilizar seu potencial produtivo por força de uma pressão deflacionária (que pune o consumo e o investimento), essa visão desconsidera os problemas que resultam de escolhas intertemporais de consumo que prejudicam o crescimento de uma sociedade a longo prazo. O que sobra é visão popular: se o governo gastar, "a poupança pinta".Do ponto de vista empírico, não estamos mais bem servidos. Elhanan Helpman, de Harvard, em um livro denominado O Mistério do Crescimento Econômico (2004), examina a interação requerida entre acumulação de capital físico e humano, instituições, geografia e política, em contraste com a picaretagem oferecida para justificar as promessas vazias dos governantes. A médio prazo, a idéia de produto potencial é útil, mas, como toda construção estatística, projeta experiências passadas. O conceito de taxa natural de desemprego, compatível com a não aceleração da inflação, não é tão útil quando muda a composição da oferta e da demanda por trabalho requerida pela expansão do setor de serviços das sociedades modernas. Nada substitui a análise cuidadosa dos especialistas para se acompanhar essas mudanças, que já se fazem sentir na economia brasileira.É, pois, alvissareiro quando a realidade mostra sua cara antes do desastre. O debate racional das restrições que a economia real impõe ao crescimento se beneficiou da constatação, na semana passada, de que não se pode fazer milagre na oferta de energia. É útil todos descobrirem que, quando falta chuva para os reservatórios, o governo tem de escolher entre aumentar o risco de apagão ou aumentar o desconforto dos usuários de GNV. Frustrando os que acreditaram na propaganda (e nos preços) oficiais, os preços vão subir. Resta estender essa lição a outras áreas da produção, para se entender as restrições reais ao crescimento econômico nos próximos anos. Não se formam engenheiros, constroem estradas, portos e aeroportos seguros com retórica. O congestionamento destrói equipamentos, aumenta os custos de carga e descarga e o tempo de espera dos navios. Sem aumento da capacidade produtiva de insumos, todo o estímulo creditício à construção força o aumento de preços a partir do precário sistema de transporte de materiais.Chegamos, assim, às conseqüências das restrições reais. Da economia aquecida, resultam aumentos de custos em toda parte, que se traduzirão em maior inflação. Pode chamar de inflação de custos, porque é assim que ela começa. Mas só termina se o governo frear a demanda para impedir a facilidade com que margens são recompostas. Se o governo aumenta gastos e bombeia o crédito, esta marcha de volta à insensatez baterá contra as limitações impostas por esse diabo de realidade.*Dionísio Dias Carneiro, economista, professor do Iapuc, é diretor do Iepe/CdG

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