Resultado da produção industrial divide opinião do mercado

LCA acredita que juro deve ser elevado no 2º semestre, enquanto BNP Paribas espera alta somente em 2010

Lucinda Pinto e Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

06 Janeiro 2010 | 12h16

A queda de 0,2% da produção industrial de novembro ante outubro, puxada especialmente pela redução de 4,8% dos bens de consumo duráveis, sugere que o ritmo do nível de atividade não está excessivamente aquecido, o que reforça a possibilidade de o Banco Central (BC) iniciar um ciclo de aumento de juros no segundo semestre deste ano, avaliou o economista-chefe da LCA, Braulio Borges. Na opinião do estrategista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz, o dado fraco reforça a percepção de que o aumento da Selic não deve ocorrer em 2010.

 

A consultoria esperava que o setor manufatureiro apresentasse uma elevação de 1% no penúltimo mês de 2009, na margem. "Talvez, a queda das compras de tais produtos tenha sido causada pela antecipação da aquisição de mercadorias pelas famílias, estimuladas pelos incentivos fiscais concedidos pelo governo", comentou.

 

"Nesse contexto, o começo da elevação da Selic em abril, como aponta a Pesquisa Focus do BC, parece ser precoce", disse. Na avaliação de Borges, os dados da produção industrial de novembro mostram um conjunto de informações que podem deixar o Comitê de Política Monetária (Copom) mais tranquilo quanto às perspectivas de antecipação do fechamento do hiato do produto no começo deste ano.

 

A LCA aposta que o BC aumentará a Selic a partir de setembro, com alta de 0,25 ponto porcentual, que será seguida por uma elevação de 0,50 ponto porcentual em outubro e outro aumento semelhante no dia 8 de dezembro, o que levará a taxa a encerrar o ano em 10%. Segundo a consultoria, o movimento de aperto monetário continuará em janeiro de 2011, com elevação de 0,50 ponto porcentual, mais 0,50 ponto porcentual em março e um aumento final de 0,25 ponto porcentual em abril, quando será encerrado na marca de 11,25%. A consultoria acredita que o PIB deve ter apresentado equilíbrio em 2009 e espera uma elevação de 6,1% neste ano.

 

Para o estrategista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz, a alta nem deve ocorrer neste ano. "Os dados mostram que não há espaço para subir os juros em 2010", afirma. Para ele, a taxa negativa de 0,20% da produção industrial, assim como o desempenho dos diferentes setores pesquisados pelo IBGE, indicam uma recuperação gradual, que não sustenta o otimismo demonstrado pelo mercado nas últimas semanas.

 

De um lado, o avanço de 6,1% da fabricação de bens de capital ante outubro indica que os investimentos começaram a se recuperar no quarto trimestre, em ritmo bem maior do que a velocidade do Produto Interno Bruto (PIB), retomando um cenário benigno que existia até o último trimestre de 2008. Lintz observa, no entanto, que, além de haver uma dose de volatilidade nesse dado, a base de comparação é bastante fraca (esse setor acumula uma queda de 19,7% em 12 meses até novembro, na comparação com igual período de 2008). A consolidação da recuperação dos investimentos dependerá nos próximos meses da capacidade da demanda que, em sua opinião, enfrentará dificuldades em 2010.

 

Lintz afirma que, este ano, o estímulo fiscal, que sustentou a recuperação da economia em 2009, chegou ao limite. "O governo não consegue mais oferecer estímulos fiscais, o que já tem reflexo positivo sobre o superávit primário", observa. Além disso, o economista acredita que o mercado de trabalho ainda sofre com os efeitos da crise e dificilmente oferecerá uma contribuição muito positiva neste ano. "Acho difícil a taxa de desemprego cair. E a massa salarial não deve crescer", afirma.

 

O economista do BNP Paribas também observa que a indústria continuará sofrendo com o mercado externo fraco, que limita as exportações. "A recuperação global é frágil. A única região que dá uma contribuição importante é a China, que consome bens básicos", diz. "Já nas regiões que importam produtos semi elaborados, por exemplo, a recuperação é mais lenta", afirma.

 

Diante desse quadro - que, em sua opinião, está claramente refletido nos números da indústria apresentados hoje pelo IBGE -, Lintz acredita que o BC deverá manter a taxa Selic inalterada até o final deste ano. Ele espera que a economia em 2010 tenha expansão de 4,20% e que o IPCA fique abaixo do centro da meta, em 4,10%. Um aumento dos juros só deve começar no início de 2011, com doses de 0,25 ponto, até que a Selic atinja

 

Capital fixo

 

O economista da LCA projeta que a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) deve subir 10% de outubro a dezembro, na margem, taxa quatro vezes superior ao incremento estimado por ele de 2,3% do PIB no mesmo período. Além disso, o economista-chefe da LCA destaca a alta de 2,1% da produção de bens intermediários em relação a outubro, o que é um bom resultado para ele, dado que tal segmento responde por pelo menos metade da atividade do setor manufatureiro do País.

 

Como a indústria ainda não recuperou o ritmo de atividade anterior à piora da crise internacional em setembro de 2008, pois exibe uma retração de 9,7% em 12 meses, a demanda agregada aquecida ainda não atingiu um patamar que é negativo para a alta da inflação. "Um sinal disso é que não há pressões de custos da produção das fábricas. O IPA industrial do IGP-M registrou queda de 0,19% em dezembro ante novembro, o que levou a uma deflação de 4,7% em 2009", ponderou.

 

A melhora dos dados relativos a investimentos devem diminuir as expectativas de agentes econômicos de que a inflação ganhará fôlego no segundo semestre e pôr em perigo o cumprimento da meta de 4,5% em 2011. Embora aumento da FBCF é elevação da demanda no curto prazo, quando empresários elevam de forma vigorosa os investimentos eles passam a acreditar que a maturação de tais capitais aplicados em obras civis e equipamentos não permitirá que o IPCA assuma uma trajetória perigosa no longo prazo.

 

Borges ressalta que o IPCA em 2010 deve ficar bem-comportado, com alta de 4,3%, e que a ação restritiva da política monetária só deve ocorrer a partir da segunda metade do ano, pois as preocupações maiores do BC estão com a rota da inflação para o ano que vem. Para ele, o Copom não tem necessidade de aumentar a Selic antes de julho, dadas as defasagens de pelo menos seis meses do movimento dos juros sobre o nível de atividade.

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