SERGIO NEVES|Estadão
SERGIO NEVES|Estadão

Resultado do PIB indica 'marcha lenta' e pouco espaço para crescimento em 2019, dizem analistas

Para especialistas do mercado, economia brasileira deve crescer em torno de 2% neste ano, mas já há revisões negativas nas previsões

Bárbara Nascimento, Caio Rinaldi, Francisco Carlos de Assis e Thais Barcellos, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 14h34

O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) de 2018 mostrou uma economia com dificuldades de reagir. Para além do resultado da indústria, abatida por questões atípicas como o período eleitoral e a greve dos caminhoneiros, especialistas destacam o baixo nível do investimento, que indica pouco espaço para crescer também em 2019.

Para a maior parte dos analistas, o ritmo deve continuar lento e o PIB neste ano deve crescer em torno dos 2%. Mas o dado divulgado nesta quinta-feira, 28, pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já provocou revisões em baixa para o PIB desse ano, caso de JPMorgan e Rabobank, por exemplo.

Para o economista-chefe da SulAmerica Investimentos, Newton Rosa, a taxa de investimento de 15,8% do PIB indica uma economia fraca e, consequentemente, um crescimento potencial baixo. Ele acredita que  os empresários devem aguardar a aprovação das reformas, sobretudo a da Previdência, para voltar a investir, o que empurra o crescimento para o segundo semestre. O governo, no entanto, está mais otimista. Em entrevista ao Estadão/Broadcast na manhã desta quinta, o secretário de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, afirmou que o crescimento pode chegar a 2,9% se a reforma for aprovada.

No entanto, na visão da economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, a reforma da Previdência e a política monetária acomodatícia não entregarão, sozinhos, um crescimento da atividade. Ela destaca que há problemas regulatórios e estruturais graves a serem resolvidos para que ocorra a retomada da expansão econômica.

O economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, afirma acreditar que o PIB em 2019 crescerá com alguma força extra em relação a 2018, mas destaca que o espaço é reduzido. "Tendemos a crescer mais forte, mais próximo do PIB potencial, que não é muito alto, em torno de 2,2%", diz. O economista explica que demora pelo menos dois trimestres para que a melhora nas condições financeiras, observada no fim do ano passado, tenha reflexos na economia real, via crédito.

A percepção é endossada pelo economista do banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal: "Ainda é muito difícil ser otimista com o PIB e enxergar um crescimento acima deste patamar", apontou. O cenário neste início de ano para a atividade econômica está poluído".

Leal destaca a paralisação das atividades da Vale, que pode afetar o desempenho da indústria extrativa e a crise na Argentina. Esta última é uma das responsáveis por ter derrubado também a atividade de 2018 na indústria da transformação. A indústria avançou apenas 0,6% no ano passado.

Rosa, da SulAmerica, emenda ainda que os primeiros indicadores de 2019 apontam que este ano "começou no mesmo ritmo do ano passado". "Teríamos que ver aceleração maior da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) para aumentar o crescimento potencial nos próximos anos", apontou. Apesar de ter tido uma alta de 4,1% em 2018, a FBCF, que mede o investimento no País, está inflada por uma mudança na contabilização das plataformas de petróleo que são exportadas para empresas estrangeiras que operam no Brasil.

Além disso, problemas na safra de alguns produtos, sobretudo a soja, podem indicar um ano difícil também para a agropecuária, destaca a economista da Fundação Getulio Vargas (FGV/IBRE), Luana Miranda. Em 2018, o crescimento da agropecuária foi de 0,1%.

Por outro lado, a fraca evolução do PIB no ano passado pode abrir espaço para que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central corte mais a taxa nominal de juro (Selic), que atualmente está em 6,50% ao ano, o menor patamar da história. Essa é a percepção do professor de economia da FGV, Nelson Marconi.

Marconi reconhece, que, sozinha, a política monetária não conseguirá mais estimular o crescimento. Mas concorda que redução dos juros básicos, somada a um ambiente de melhora fiscal estabelecido a partir de uma reforma previdenciária, convencerá o mercado a trabalhar com juros mais baixos, o que ajudaria a destravar o crescimento.

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