Resultado e espetáculo

No mundo corporativo não é novidade a exigência profissional de possuir equilíbrio entre as competências técnicas e as comportamentais, embora ainda seja um dos maiores desafios em termos de formação de pessoas. Comprometimento, otimismo, entusiasmo, trabalho em time, construir parcerias, influenciar pessoas, resiliência, adaptabilidade, confrontação positiva, gestão de conflitos, atuação na adversidade são alguns exemplos dessas competências comportamentais. Crucial ter passado por profundo processo de autoconhecimento, conhecer o próprio perfil e atitudes para ter um claro entendimento de como o desempenho da equipe será impactado, por exemplo.

ESPECIALISTA EM EDUCAÇÃO CORPORATIVA, É PROFESSORA DA FEA/USP, DA FUNDAÇÃO INSTITUTO DE ADMINISTRAÇÃO - FIA., O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h11

No mundo esportivo não é diferente, ou não deveria ser, principalmente quando se trata de um esporte coletivo como o futebol. Quem acompanhou notícias sobre as carreiras dos jogadores Edmundo, Adriano, Ronaldinho e outros "problemáticos" talvez desconheça quem foi o grande precursor nessa área: Heleno de Freitas! Foi o primeiro craque estrela, bonito, rico, vaidoso, elegante, boa família, formado (advogado), mulherengo, festeiro, temperamental. Vestiu a camisa do seu clube, o Botafogo do Rio, onde jogou na era pré-Garrincha. Foi apelidado de Gilda, filme estrelado por Rita Hayworth no papel da mulher tão bela quanto temperamental e encrenqueira. Foi o primeiro bad boy do futebol brasileiro nos anos 1930 e 1940. Rodrigo Santoro interpretou-o no cinema, cuja história é marcada pela glória e tragédia. Costuma-se dizer que Heleno foi meio Edith Piaf... Ou seja, não dá para saber se foi herói ou vilão.

O filme baseia-se no livro intitulado "Nunca Houve um Homem como Heleno", escrito por Marcos Eduardo Neves. Armando Nogueira, apaixonado por Heleno, "a personalidade mais dramática que conheci nos estádios deste mundo", escreveu um de seus mais belos textos, "Anjo e demônio", num dos aniversários da morte do craque. O artigo termina desta forma, como também termina o livro de Neves:

"Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais que conheci nos estádios, morreu, sem gestos, de paralisia progressiva, e descansa, hoje, no cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça."

Muitas dúvidas podem ter ficado sobre Heleno, mas é inquestionável que sua carreira precoce e turbulenta se deveu à ausência da maioria das competências comportamentais mencionadas no início deste texto. Nos aspectos individuais, esbanjava comprometimento, otimismo e entusiasmo, mas nos relacionais e grupais era uma nulidade. Era estrela, não considerava o time, não era bom construtor de parcerias, tinha pouca capacidade de adaptação, confrontação era sempre negativa e provocava em vez de gerir conflitos.

Exemplo. Quando quase todos acreditavam ser missão impossível o Brasil conquistar a Copa das Confederações 2013, os que conheciam bem a trajetória de 31 anos de carreira do técnico Luiz Felipe Scolari, Felipão, sabiam que seu jeitão de trabalho é dado a triunfar na adversidade. Também é possuidor de um estilo de liderança promotor de um verdadeiro time que equilibra "objetivos e valores", dando liga ao "espírito da família Felipão", uma de suas principais armas. Olheiro de primeira, identificou em Bernard o menino que tem "alegria nas pernas"! Mexer com o psicológico dos jogadores, tirar aquilo que cada um tem de melhor, fazer apostas em atletas que estão praticamente descartados (é só relembrar Ronaldo Fenômeno na Copa do Mundo em 2002, e o goleiro Júlio César agora em 2013), energizar os jogadores e time capazes de jogar com garra e superação inacreditáveis (quer melhor exemplo do que David Luiz continuar jogando com a fratura no nariz?). Construir um ambiente de amizade entre os jogadores: ele sabe como ninguém elevar a confiança dos jogadores e dos torcedores.

Não é um time de estrelas? A única "quase estrela" é Neymar? Mas o que prevaleceu foi a valorização de todos dentro do time. Jogaram bonito e ganharam. Resultado e espetáculo de mãos dadas!

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