Retirada de incentivos pode gerar demissões no País, alerta OIT

Organização também chama a atenção para a persistência da falta de qualificação dos trabalhadores brasileiros

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

07 de dezembro de 2009 | 15h54

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alerta para o risco de que uma retirada prematura dos incentivos fiscais - como a isenção de IPI - no Brasil acabe gerando uma nova onda de demissões no setor industrial, como ocorreu no início de 2009. Outro sério problema para a recuperação é a persistência da falta de qualificação dos trabalhadores brasileiros diante da baixa escolaridade média. Até junho, a entidade estima que crise econômica mundial já fez com que 20 milhões de pessoas fossem demitidas de seus trabalhos no mundo. Nos países emergentes, a volta aos níveis de emprego anteriores ao da crise ocorreria em 2011. Os países ricos teriam de esperar até 2013 ou 2014.

 

A OIT, diante de uma recuperação que ainda considera como fráfil, apelou na segunda-feira para que os pacotes de estímulo em todo o mundo não seja retirados. Se isso ocorrer, outras 43 milhões de pessoas serão expulsas do mercado de trabalho. 5 milhões de trabalhadores perderão seus empregos quase que imediatamente.

 

Por enquanto, a retomada no Brasil está sendo alimentada pelos incentivos ao consumo no mercado doméstico e um pacote de estímulo equivalente a 1,5% do PIB. O aumento de 6% no salário minimo também beneficiou 40% dos trabalhadores. Para a OIT, o Brasil está demonstrando que a elevação do salário não está gerando uma maior informalidade, já que essa taxa também vem caindo.

 

Mas os desafios no País são importantes. O primeiro deles está relacionado com a manutenção de incentivos, como a isenção de IPI na compra de carros e eletrodomésticos. A medida garantiu vendas e, portanto, preservou postos de trabalho.

 

Para a OIT, o principal desafio do governo a partir de agora será de como irá retirar o incentivo sem gerar uma queda brusca de novo no mercado de trabalho. "O desafo para o governo continua sendo o de retirar o estímulo sem reduzir o crescimento e geração de empregos"", afirmou a OIT.

 

Outro desafio que o Brasil enfrenta é a falta de trabalhadores qualificados. A OIT estima que a baixa escolaridade é um obstáculo para maior produtividade do trabalhador brasileiro. Em média uma pessoa no Brasil frequenta por 7,3 anos a escola. Nos países ricos, a taxa chega a 12 anos.

 

O resultado é a persistência da falta de mão de obra qualificada no País, ainda que o desemprego caia. Outro alerta da OIT está relacionado com o número de pessoas recebendo seguro desemprego. No Brasil, 93% dos desempregados não conta com qualquer tipo de ajuda. Nos países ricos, a taxa é de 55%. No Chile, Uruguai e Costa Rica, a taxa é de 80%.

 

 

No início da crise, a OIT havia estimado que até 59 milhões de pessoas perderiam seus trabalhos entre 2008 e 2009. No total, um recorde de 239 milhões de pessoas não teriam trabalho até o final do ano. Isso significaria uma taxa média de desemprego no mundo de 7,4%. O recorde anterior foi de 2003, com 6,5%.

 

Diante dos pacotes de incentivos, a entidade admite que muitos empregos foram salvos. Na Alemanha, por exemplo, empresas receberam verbas públicas para manter os trabalhadores nas fábricas. Mesmo assim, em dois anos, a ampliação de desempregados será de quase 40 milhões de pessoas. O estrago só será arrumado no início de 2014 nos países ricos.

 

Regiões

 

Na Europa, 6,1 milhões de empregos foram perdidos desde março de 2008. Nos Estados Unidos, 8,1 milhões de pessoas foram demitidas desde dezembro de 2007 e a taxa de desemprego passou de 5,3% para 10,2%.

 

O apelo pela manutenção dos pacotes também é direcionada ao Brasil, China e Índia. Juntos, essas economias foram responsáveis pela metade dos novos desempregados no primeiro trimestre do ano. A projeção é de que, nos países emergentes, os níveis de emprego voltarão ao período pré-crise apenas no início de 2011. O cenário é mais favorável que o dos países ricos. "Mas há o risco de uma retirada prematura dos pacotes prolongue a crise no setor de empregos", disse a OIT, em um documento publicado na segunda-feira.

 

"É bom que haja um crescimento de novo na economia mundial. Mas a crise de empregos não acabou", alertou Raymond Torres, diretor da OIT para políticas de emprego. "Em muitas empresas, os empregos apenas foram mantidos graças aos incentivos dados por governos", disse. "Se essas medidas forem agora retiradas, sem um crescimento sustentável, milhões perderão seus trabalhos", afirmou.

 

Apenas nos três primeiros meses de 2009, 1 milhão de empregos foram perdidos na América Latina. No Brasil, 490 mil trabalhadores foram demitidos entre janeiro e junho, uma das quedas mais pronunciadas. Mas a OIT admite que a crise do desemprego no Brasil foi de curta duração. No terceiro trimestre, 417 mil empregos foram gerados.

 

A OIT elogiou o fato de que o País está superando a queda nos postos de trabalho e que está superando os problemas de forma ainda mais rápida que outros mercados emergentes. Entre março e setembro, a taxa de desemprego caiu de 9% para 7,7%.

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