Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Dados divulgados pelo Banco Central mostram que janeiro teve o maior volume de retiradas para um único mês na série histórica do BC, iniciada em janeiro de 1995.  Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Retiradas da poupança batem recorde em janeiro e somam R$ 18 bilhões

Esse é o maior volume de retirada para um único mês na série histórica do Banco Central, iniciada em janeiro de 1995

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2021 | 15h34

BRASÍLIA - Após dez meses consecutivos de captações, a caderneta de poupança fechou o mês de janeiro de 2021 com saída recorde de recursos. Dados divulgados nesta quinta-feira, 4, pelo Banco Central mostram que saíram da poupança R$ 18,154 bilhões a mais do que entrou em depósitos no mês passado. Esse é o maior volume de retiradas para um único mês na série histórica do BC, iniciada em janeiro de 1995. 

O recorde anterior era de janeiro do ano passado, quando R$ 12,356 bilhões haviam sido sacados.

O montante de R$ 18,154 bilhões considera as retiradas ocorridas em janeiro, já descontados os depósitos feitos ao longo do mês. O resultado negativo coincide com o fim do pagamento, pelo governo, de auxílios emergenciais.

No ano passado, a poupança foi favorecida pelo pagamento dos auxílios, em meio aos esforços do governo para reduzir os efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre uma parcela da população. 

Além disso, a caderneta foi impulsionada em 2020 pela maior cautela das famílias brasileiras. Preocupadas com a renda futura e com medo do desemprego, muitas delas reduziram gastos e passaram a aplicar recursos na poupança, o que elevou o saldo. Esse movimento foi o que o próprio BC chamou de “poupança precaucional”.

Janeiro também é, tradicionalmente, um mês de mais saques que depósitos na poupança, em função das despesas de início de ano. Entre elas, estão o IPTU, o IPVA, a matrícula de filhos em escolas particulares e os gastos com material escolar.

“Os saques maiores da poupança em janeiro têm muito a ver com o fim do auxílio emergencial. Tinha gente que recebia os depósitos todo mês e deixava parte do dinheiro na caderneta”, afirma o economista Alexandre Cabral, professor do Ibmec-SP. Ele lembrou que a Caixa Econômica Federal abriu milhares de contas justamente para depositar benefícios a trabalhadores atingidos pelos efeitos da pandemia do novo coronavírus. “Além disso, janeiro é um mês de pagamento de impostos, de despesas com escola. Tudo isso eleva os saques”, acrescentou.  

Os pagamentos do auxílio emergencial à população de baixa renda, no valor de R$ 600, começaram a ser feitos em 9 de abril do ano passado. Nos últimos meses do ano, o governo passou a depositar na conta dos beneficiários a extensão do auxílio emergencial, no valor de R$ 300. Estes valores foram pagos apenas até o fim de dezembro.

Já em janeiro, os brasileiros retiraram R$ 263,062 bilhões brutos da poupança em janeiro e depositaram R$ 244,909 bilhões. O movimento gerou a retirada líquida de R$ 18,154 bilhões. Considerando o rendimento de R$ 1,652 bilhão no período, o saldo total da caderneta somou R$ 1,019 trilhão no fim de janeiro.

A poupança é remunerada pela taxa referencial (TR), que está em zero, mais 70% da Selic (a taxa básica de juros), hoje em 2% ao ano. Assim, a remuneração atual da poupança é de 1,4% ao ano. O porcentual não cobre necessariamente a inflação.  

Essa regra de remuneração da poupança vale sempre que a Selic estiver abaixo dos 8,50% ao ano. Quando estiver acima disso, a poupança é atualizada pela TR mais uma taxa fixa de 0,5% ao mês (6,17% ao ano). 

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Pequeno investidor diversifica carteira, mas auxílio emergencial garante liderança à poupança

Entre os brasileiros com menos de R$ 100 mil investidos, de cada R$ 100 em aplicações financeiras, R$ 42,3 estão na poupança

Ernani Fagundes, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2021 | 15h26
Atualizado 10 de fevereiro de 2021 | 01h57

Impulsionada pelo pagamento do auxílio emergencial nas contas digitais da Caixa Econômica Federal, a caderneta de poupança passou a ocupar uma fatia ainda maior na carteira dos clientes dos segmentos de varejo tradicional, onde estão pequenos investidores, e varejo de alta renda em 2020.

O porcentual em poupança aumentou de 40% do total de investimentos em 2019 para 42,9% em 2020. Ou seja, de cada R$ 100 em aplicações financeiras, R$ 42,3 estão na poupança, segundo dados divulgados pelo presidente do Fórum de Distribuição da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), José Ramos Rocha Neto, nesta quinta-feira, 4.

No segmento de varejo tradicional o volume em poupança atingiu R$ 810 bilhões, alta de 22,8% em 2020, em comparação com 2019. No varejo de alta renda, que inclui investidores com valores entre R$ 100 mil e R$ 1 milhão aplicados, o volume em poupança cresceu 15,5%, para R$ 142,4 bilhões no fim de dezembro. "Sem o auxílio emergencial, talvez a poupança não consiga manter esses níveis de crescimento", diz Rocha Neto. "A poupança já começa a ser consumida."

O total investido por pessoas físicas no País cresceu 13,4%, de R$ 3,263 trilhões em dezembro de 2019 para R$ 3,701 trilhões em dezembro de 2020, segundo a Anbima. Por segmento, o varejo tradicional cresceu 20,3%, para R$ 1,164 trilhão, o varejo de alta renda avançou 6,7%, para R$ 1,054 trilhão, e o private, os investidores que têm mais de R$ 1 milhão aplicados, evoluiu 13,5%, chegando R$ 1,482 trilhão em recursos em aplicações financeiras.

CDBs e ações 

Rocha Neto disse que o certificado de depósito bancário (CDB) também ganhou espaço no varejo (tradicional e alta renda), provavelmente refletindo a saída de fundos de renda fixa para ativos de liquidez diária. A fatia em CDB passou de 10% em 2019 para 13,6% de participação em 2020.

"A diversificação dos investimentos das pessoas físicas também aumentou", identificou Rocha Neto. Pelos dados da Anbima, a fatia em ações por investidores de varejo subiu de 4,3% para 5,7% das carteira. A participação em fundos multimercados avançou de 6,2% para 6,3%, enquanto nas Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) evoluiu de 2,7% para 2,8%.

Na ponta contrária, os investidores de varejo reduziram a exposição em fundos de renda fixa, de 23,1% para 16,1%; Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), de 4,8% para 3,7%; fundos de ações, de 2,3% para 2,1%, e em títulos públicos no Tesouro Direto, de 2,1% para 2%.

A administradora Valéria Fillipin, de 25 anos, está entre os investidores que ajudaram a aumentar o volume de aplicações na poupança. Quando recebeu, em setembro do ano passado, a doação de cerca de R$ 30 mil de uma tia, ela foi influenciada pelo pai e colocou o valor na poupança - nenhum deles conhecia outros investimentos. "Abri a conta para colocar o dinheiro que ganhei e, depois que arrumei um emprego, tenho colocado todo mês uma quantia lá. Para ser sincera, não pesquisei o que seria melhor fazer com o dinheiro", conta. Assim como o pai, Valéria classifica o rendimento na poupança como "suficiente". 

Ao contrário dela, o fluminense Eric Branco, de 23 anos, trocou a poupança pela Bolsa de Valores no ano passado. Com a quarentena, ele conseguiu poupar mais e viu na renda variável uma chance de obter mais retorno. “Descobri que eu poderia ser acionista das empresas que já conhecia e decidi experimentar”, diz. Até então, ele não tinha conhecimento sobre o assunto e mal sabia que era possível comprar papéis com pouco dinheiro. Foram dois meses consumindo conteúdo sobre investimentos no internet até que ele estivesse confiante para ingressar no mercado de forma segura, com ações e fundos imobiliários.

Fundos de investimento

No private, o volume financeiro em ações cresceu 38,8%, enquanto a participação em fundos de renda fixa passou de 8,7% em 2019 para 5,9% em 2020, a menor participação da série histórica da Anbima, iniciada em 2009.

No volume total, o  número de contas em fundos de investimento aumentou 20,57%, chegando a 25.367.067 contas em dezembro de 2020. "O cenário macro foi muito importante por causa da queda dos juros, mas também teve um movimento de digitalização, de busca por informações. Acredito que esse crescimento do mercado de fundos, de democratização e maior acesso é só começo", disse a estrategista-chefe da Rico Investimentos, Betina Roxo.

No varejo tradicional, o número de contas subiu de 6,794 milhões em 2019 para 7,643 milhões em 2020, uma alta de 12,5% no período. No varejo de alta renda, o número de clientes avançou 14,2%, de 5,948 milhões para 6,794 milhões, na mesma base de comparação.

No segmento private foram adicionados 189,32 mil novos cotistas, um crescimento de 21% no período, de 874,4 mil, em 2019, para 1.063.720 contas, em 2020. / COLABORARAM DAVI MEDEIROS e CRIS ALMEIDA

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