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Retomada à vista

Agricultura deve ser destaque do PIB em 2017, especialmente no primeiro trimestre

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2017 | 05h00

Há uma chance razoável de que uma das maiores recessões da história econômica brasileira tenha terminado no quarto trimestre de 2016, e que a fase de recuperação, ainda que gradual e lenta, esteja se iniciando neste primeiro trimestre de 2017.

Os péssimos números do Produto Interno Bruto (PIB) de outubro a dezembro assustaram, com uma retração de 0,9% (na comparação dessazonalizada com o trimestre anterior) que levou a economia brasileira a completar um ciclo infernal de queda de 7,2% desde o início de 2015. Mas indicadores de confiança e da economia real apontam uma retomada no primeiro trimestre.

Basicamente, a indústria dá sinais de partir na frente na recuperação cíclica da economia, com uma contribuição expressiva das exportações, enquanto a agricultura saiu de um ano muito ruim para outro que tem tudo para ser muito bom.

Os serviços, entretanto, são mais dependentes da renda dos consumidores e, com o mercado de trabalho ainda no fundo do poço, devem demorar mais a se recuperar.

Como os serviços representam mais de 70% da economia, o resultado do PIB do primeiro trimestre não deve ser nada brilhante, e pode ficar bem perto de zero.

Isso, porém, é menos importante do que verificar se de fato a indústria engatou a primeira marcha. É um padrão razoavelmente típico que os serviços demorem mais a entrar e a sair de recessão, sendo gradativamente puxados pela indústria, tanto para baixo quanto para cima.

Em janeiro, a produção industrial cresceu 1,4% em relação ao mesmo mês de 2016, a primeira vez que isto acontece em quase três anos. No entanto, na comparação dessazonalizada com dezembro, ainda se registrou um mínimo recuo de 0,1%.

Já para fevereiro, o Ibre/FGV projeta crescimento da produção industrial de 1,6% na comparação com o mesmo mês de 2016 e de 1,5% em relação a janeiro (com dessazonalização).

A produção da indústria automobilística fechou o primeiro bimestre com números muitos fortes em fevereiro, que surpreenderam os analistas. Foram produzidas 200,4 mil unidades (carros, ônibus e caminhões) no mês passado, 39% a mais do que em fevereiro de 2016. Com isso, a produção do primeiro bimestre atingiu 375,1 mil unidades, 28% a mais do que em igual período do ano passado.

Impressionou particularmente o salto na exportação de veículos entre o primeiro bimestre de 2016 e o de 2017: de 60,2 mil para 104,2 mil, num avanço de 73,1%.

Alexandre Bassoli, economista-chefe da área de gestão de ativos do grupo Opportunity, considera que a alta da produção automobilística no primeiro bimestre é uma combinação do fim do processo de redução de estoques com a elevação das vendas externas.

Nos índices de confiança da Fundação Getúlio Vargas, registra-se alta generalizada desde o início do ano. Em fevereiro, a confiança da indústria devolveu um pedaço da expressiva elevação de janeiro, mas a dos serviços, comércio e consumidores continuou avançando, e a da construção civil ficou praticamente estável. Os índices ainda estão em níveis historicamente baixos, mas parece surgir uma tendência geral de elevação.

A agricultura, por sua vez, deve ser um destaque do PIB em 2017, especialmente no primeiro trimestre, em função da safra de soja. Em 2016, por causa principalmente de problemas climáticos, o setor agrícola recuou 6,6% na medição do PIB. Em 2017, prevê-se uma recuperação da safra de 12% a 15%.

Todo esse ensaio de retomada, porém, apoia-se na redução da taxa básica de juros pelo Banco Central, apoiada pela percepção de empresários e investidores de que uma solução para a enorme crise fiscal brasileira está sendo devidamente encaminhada, com a aprovação da emenda do limite dos gastos e a perspectiva de que uma substancial reforma da Previdência também passe no Congresso Nacional.

Os congressistas, portanto, já sabem o que fazer, caso desejem abortar a recuperação: basta derrubarem ou descaracterizarem as mudanças da Previdência.

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