Daniel Teixera/Estadão
Daniel Teixera/Estadão

Retomada da América Latina avança, mas cresce desilusão com política

Retomada, porém, não tem sido acompanhada de redução da desigualdade econômica, avaliam especialistas

Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

14 Março 2018 | 19h07

A recuperação do Brasil e da América Latina deve ganhar força este ano e o Produto Interno Bruto (PIB) da região pode crescer 2,2%, acima dos 1,2% de 2017. Essa retomada, porém, não tem sido acompanhada de redução da desigualdade econômica e de melhora do bem-estar da população, o que está contribuindo para o aumento da insatisfação da sociedade com os partidos e a classe política, movimento que é ampliado ainda pela disseminação da corrupção. Essa é a avaliação dos participantes de um dos painéis do Fórum Econômico Mundial que acontece nesta quarta-feira, 14, em São Paulo.

A Odebrecht foi citada por alguns dos participantes do painel como uma das empresas que propagaram práticas de corrupção nos países da América Latina. "A Odebrecht conseguiu unir a região, mas em termos de corrupção compartilhada", disse a analista política do Instituto Tecnológico Autônomo do México (Itam), Denise Dresser.

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Já a ministra das relações exteriores do Panamá, Isabel de Saint Malo de Alvarado, mencionou que o ex-presidente panamenho, Ricardo Martinelli, foi preso em Miami no ano passado, em meio a acusações que seus filhos pediram propina à Odebrecht. "O fato de casos de corrupção terem vindo à público é uma notícia boa. Tomara que influenciem o ciclo eleitoral", disse ela.

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Ao mesmo tempo, a ministra ressaltou que o PIB panamenho tem sido um dos que mais cresce na América Latina, com taxas de expansão superiores a 6%, enquanto aumenta a insatisfação da população com a economia. A melhora dos indicadores da atividade econômica não tem se traduzido em avanço do bem-estar da população em toda a região, disse ela.

No México, a analista política ressaltou que a agenda de reformas avançou nos últimos anos, mas trouxe benefícios para parcela pequena da população, enquanto a pobreza aumentou e a corrupção se alastrou por lá. Como reflexo, o país pode ser um dos poucos na América Latina no atual ciclo eleitoral a ter vitória de um candidato de esquerda.

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A agenda de reformas mexicanas acabou sendo diluída e distorcida, disse Denise Dresser, do Itam. "Houve ganhadores com as reformas, mas também houve perdedores." Ainda no México, a analista ressaltou que o combate à corrupção é particularmente complicado pela falta de independência entre o poder Executivo e o Judiciário. Nesse ambiente de insatisfação no México e outros países, a analista ressalta que crescem os movimentos que contestam a democracia.

A economia da América Latina está avançando, mas a região tem 189 milhões de pessoas de baixa renda, dos quais 69 milhões abaixo da linha da pobreza, disse a secretária-executiva da Comissão Especial da ONU para a região, a Cepal, Alicia Bárcena Ibarra. Como o avanço do PIB não se traduz na redução da desigualdade social, cresce a insatisfação da sociedade com a classe política. "O voto político não se transforma em bem-estar", disse ela ao falar da desconexão entre o ciclo econômico e a melhora de condições da sociedade.

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Dos 18 países da América Latina, 15 vão passar ou passaram recentemente por eleições, considerando o período entre 2017 a 2019, disse o diretor regional para a América Latina da Idea Internacional, Daniel Zovatto. Para ele, é prematuro afirmar que a região está se movendo de forma homogênea para governos de centro-direita. Ao menos em 11 países, os atuais governantes não devem se reeleger, mais uma evidência do crescente descontentamento da sociedade com os atuais governantes e os partidos políticos, que não se renovam.

Único representante do setor privado no debate sobre o ciclo eleitoral na América Latina, o vice-presidente-executivo do Itaú Unibanco, Ricardo Villela Marino, afirmou que a corrupção é o "elefante branco" na região que não pode ser ignorado e argumentou que os países precisam de uma nova geração de políticos, que não queiram apenas se servir do Estado. Para Marino, a geração formada pelos "milênios" pode renovar a política e é "movida por propósitos". "Não vão entrar no Estado para se servir dele, corromper-se pelo Estado, querem entrar para servir ao seu país."

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Marino ressaltou que a renovação da classe política precisa começar pelo Congresso e defendeu que reformas, como a Previdência e a tributária, avancem no Brasil, mas sem deixar de lado a questão social. Para Marino, ao invés do debate "esquerda" e "direita", é melhor discutir se Brasil está caminhando para frente ou para trás.

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