Tasos Katopodis/EFE
Tasos Katopodis/EFE

Retomada da economia dos EUA fez crescer medo do 'grande boom do mal'

Muitos parecem incapazes de colocar em perspectiva as turbulências e sinais de alerta de uma economia em recuperação

Paul Krugman*, The New York Times

08 de maio de 2021 | 04h00

“Se chover, talvez seja boa ideia abrir nossos guarda-chuvas”, afirmou a secretária do Tesouro.

“Ah, meu Deus, ela está prevendo uma tempestade torrencial”, berraram, em pânico, os especialistas.

Ok, não foi bem isso que Janet Yellen disse na terça-feira. Suas palavras exatas foram: “Pode ser que as taxas de juros tenham de aumentar um pouco para garantir que nossa economia não superaqueça”. A fala dela não foi nenhum tipo de previsão e, certamente, não foi uma tentativa de influenciar o Federal Reserve [Fed, o banco central americano]. Foi simplesmente um comentário sensato.

Mesmo assim, é algo que ela não devia ter dito. Convencionou-se que a mais alta autoridade econômica do país deve evitar ao máximo proferir verdades a respeito da economia, mesmo as mais óbvias, mesmo que a pessoa seja uma economista de renome mundial, já que essas declarações podem ser entendidas como sinais de… algo. E a imprensa econômica se apressou para qualificar a fala dela como um desvio escandaloso da linha oficial do governo Joe Biden.

Por sorte, esse furor não durou muito e, em se tratando dessas coisas, o momento de sinceridade de Yellen não parece ter sido nada demais. As expectativas do mercado em relação à política monetária, refletida na forma de taxas de juros de longo prazo, parecem não ter se alterado absolutamente nos dois meses mais recentes.

Mas a resposta dessa mídia hipersensível foi parte de um fenômeno mais abrangente: muitos comentaristas parecem incapazes de colocar em perspectiva as turbulências e sinais de alerta de uma economia em crescimento.

Definitivamente, há uma expansão em andamento, mesmo que a vasta maioria dos republicanos acreditem que a economia está piorando. Todos os indicativos são de que estamos a caminho do ano de crescimento mais rápido desde o boom da época do “Morning in America”, entre 1983 e 1984. O que há para se queixar?

Bem, economias em expansão com frequência esbarram em gargalos temporários, que se traduzem em aumentos de preços de certos produtos. Por exemplo, o preço do cobre triplicou entre dezembro de 2008 e fevereiro de 2011, ainda que a recuperação da recessão de 2008 tenha sido bastante vagarosa.

O problema do gargalo é especialmente severo agora, porque a recessão causada pela pandemia foi, para usar um termo técnico, estranha, assim como a recuperação que está em andamento. Os gastos de consumo não seguiram padrões vistos em recessões convencionais e, como resultado, estamos agora diante de perturbações incomuns.

A grande escassez de madeira é um caso a se apontar. Despesas com reformas de imóveis normalmente desaparecem durante recessões. Em 2020, porém, muita gente ficou presa em casa, e os americanos esbanjaram em melhorias para suas habitações. Os madeireiros não previram esse movimento e tinham diminuído a produção, o que reduziu sua capacidade de atender à demanda. Então, o preço das tábuas subiu para alturas além dos (caríssimos) telhados.

Mas esses gargalos colocam em risco a recuperação em geral? Isso significa que os responsáveis pela política econômica precisam recuar? Não. A lição inescapável dos 15 anos mais recentes é que flutuações de curto prazo nos preços de matérias-primas não nos dizem nada a respeito do futuro da inflação e que os responsáveis pela política econômica reagem exageradamente a essas flutuações – como o Banco Central Europeu, que aumentou as taxas de juros em meio a uma crise da dívida porque ficou assustado com os preços de commodities – para invariavelmente se arrependerem depois.

Então, a escassez de matérias-primas não é um grande problema. Mas e a escassez de mão de obra?

Muitos empregadores estão reclamando atualmente por não conseguirem encontrar trabalhadores suficientes, apesar do desemprego generalizado; funcionários do Federal Reserve acreditam que a verdadeira taxa de desemprego ainda está próxima de 10%. Em que medida devemos levar essas reclamações a sério?

Por acaso, estive debruçado sobre um relatório intitulado “A luta dos pequenos negócios dos EUA para encontrar trabalhadores qualificados”. O relatório sintetiza uma pesquisa realizada pelo instituto Gallup e a Wells Fargo que constatava que a maioria das empresas afirma ter dificuldades em contratar.

Ah, eu mencionei a data do relatório? 15 de fevereiro de 2013 – uma época em que havia três desempregados para cada vaga de trabalho aberta. Não existia, na verdade, nenhuma escassez de mão de obra, e a taxa de desemprego se manteve em queda por mais sete anos.

Então, o que estava acontecendo? Empregadores em uma economia em recessão se acostumam a preencher vagas de trabalho com facilidade. Quando a economia melhora, contratar fica um pouco mais difícil; às vezes é necessário atrair trabalhadores com salários mais altos. E os empregadores interpretam isso como escassez de mão de obra.

Mas é assim que a economia deveria funcionar! A concorrência entre empregadores que disputam trabalhadores aumentando salários não é um problema: é isso que queremos ver.

Isso tudo significa, então, que não há limite para a expansão da economia e que a inflação nunca será um problema? Claro que não. Casos pontuais de escassez de alguns produtos e um mercado robusto, favorável ao trabalho, não são razões para entrar em pânico.

Devemos nos preocupar somente se virmos um desses fatores: evidência de que expectativas de inflação estão influenciando a determinação dos preços e/ou evidência de que a economia está superaquecendo. Até agora, não há evidência do primeiro problema potencial – e o governo Biden está, segundo relatos, tomando bastante cuidado com isso.

Quanto ao superaquecimento: sim, isso pode ser problemático. Acabamos de aprovar um enorme pacote de ajuda, e os lares estão guardando enormes poupanças. Então, uma expansão exagerada é possível. Mas, se isso acontecer, acredito que o Fed será capaz de pisar no freio – e que o fará. Posso dizer isso porque, felizmente, não sou funcionário público. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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