Retomada da economia global será mais lenta

Brasil, China e Índia apresentam expansão, mas essa não é a regra para demais países

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

O governo espanhol tomou uma medida drástica para reduzir os gastos: baixou de 120 quilômetros por hora para 110 o limite de velocidade nas estradas do país. Com isso, conseguiu em quatro meses, economizar 450 milhões, importando menos combustível e reduzindo o déficit nas contas da Espanha.

A decisão vigora até a semana que vem, quando a velocidade tradicional volta a ser adotada. A medida não poderia ter sido uma demonstração mais explícita de que a economia de diversos países ainda está literalmente em marcha lenta e que o risco de uma recaída é real.

Três anos após a eclosão da crise econômica, a constatação é de que, se queda foi dura, a recuperação está se mostrando ainda mais difícil. Depois de superada a fase dos discursos otimistas, agora governos, bancos e especialistas se dão conta de que a retomada do crescimento no mundo pode levar mais tempo do que previam. Enquanto isso, as consequências sociais e até políticas são profundas.

Nesta semana, o Banco Mundial resumiu o que banqueiros, agências de crédito e economistas já vinham alertando: a economia mundial patina e a recuperação ocorre em câmera lenta. Grandes países emergentes, como Brasil, China e Índia, apresentam taxas de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) importantes. Mas não são a regra.As economias ricas continuam praticamente estagnadas e dezenas de países mais pobres sofrem também com a crise.

"Não saímos da crise", afirmou Supachai Panitchpakdi, secretário-geral da Unctad. "O que temos são estatísticas positivas. Mas isso não quer dizer que os problemas foram superados. Estamos nos deixando levar por ilusões ", alertou. Segundo ele, bancos voltaram a ter resultados positivos. Mas a fragilidade da expansão não deixa dúvidas de que não estariam preparados para sobreviver a uma nova quebra.

Em janeiro, o Banco Mundial estimava que o crescimento do planeta em 2011 seria de 3,3%. Nesta semana, já reduziu para 3,2% e a Organização para as Nações Unidas (ONU) já admitiu que o freio pode ser ainda maior, com expansão de apenas 2%.

Entre as seis maiores economias ricas, só os Estados Unidos e a Alemanha registraram finalmente em março deste ano uma alta real em seus PIBs em comparação a setembro de 2008. Ainda assim, por uma margem mínima. Reino Unido, França, Japão e Itália sequer se recuperaram da queda que levaram em 2008.

Segundo um levantamento da OCDE, recessões que haviam atingido esses mesmos países após a crise do petróleo em 1973 e no início dos anos 80 foram revertidas em um período de tempo mais curto. Agora, a recuperação tem sido lenta e dolorosa.

Tsunami. Para especialistas, existem dois fatores na atual crise que estão explicando a demora na recuperação. Os primeiros fatores são conjunturais como o tsunami no Japão, a alta nos preços de commodities e as revoltas no mundo árabe, que por si só seriam elementos que adiariam uma retomada. "Mas a principal razão para a lenta recuperação é que essas economias estão obrigadas a passar por uma restruturação que não conheciam desde os anos 30 e essa é a grande dificuldade", explicou Juan Somavia, diretor da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Para Supachai, da Unctad, a economia mundial apenas terá uma expansão sustentável quando essa restruturação de fato ocorrer. Hoje, o consenso é de que os emergentes estão permitindo um avanço na economia mundial. Mas a segunda parte desse consenso é de que não há como o mundo registrar um crescimento sustentável no PIB mundial enquanto os países ricos não retomarem suas taxas de expansão. "A recuperação da economia mundial somente será sustentável quando Europa, Japão e Estados Unidos voltarem a crescer", alertou Somavia.

"A locomotiva do crescimento mundial quebrou em 2008 e até agora não encontraram as peças para fazê-la funcionar adequadamente. Não adianta tentarmos nos enganar com resultados positivos em algumas regiões", disse Heiner Flassbeck, economista-chefe da Unctad.

"Por enquanto, os indicadores apontam para um cenário preocupante. Nos Estados Unidos, o Banco Mundial reduziu a previsão de crescimento de 2,8% para 2,6%. "Há uma pausa no crescimento", disse Andrew Burns, diretor de macroeconomia do Banco. Ben Bernanke, presidente do Fed, disse duas semanas atrás que a recuperação da economia estava "frustrantemente lenta" e "desigual".

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