Brendan McDermid/Reuters
Brendan McDermid/Reuters

Retomada de grau de investimento ainda levará muito tempo

Segundo economistas, Brasil não deve reconquistar o 'selo de bom pagador' antes de Temer entregar a faixa a seu sucessor

Eduardo Laguna, Thaís Barcellos, Gustavo Porto, correspondente, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2017 | 21h06

SÃO PAULO E RIBEIRÃO PRETO - Com a retirada da ameaça de novo corte na nota de risco de crédito do Brasil, a Moody's foi a primeira agência de rating a dar um sinal positivo ao receituário seguido pelo governo para reequilibrar as contas públicas. Reconquistar o grau de investimento - o selo de bom pagador conferido pelas agências de rating - será, porém, um caminho longo. Segundo economistas, esse trajeto não deve ser totalmente percorrido antes de o presidente Michel Temer entregar a faixa presidencial a seu sucessor.

Analistas do mercado viram no anúncio da Moody's um reconhecimento da correção de rumo da política econômica, mas, citando o quadro fiscal ainda negativo e riscos políticos, consideraram apressadas as declarações do ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, de que o grau de investimento virá "logo".

Segundo o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central (BC), se o Brasil fizer tudo "direitinho" - isso é, conseguir aprovar as reformas e estabilizar a dívida pública em porcentual próximo de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2021 ou 2022 -, será possível recuperar o grau de investimento, mas não no curto prazo.

"Tem uma eleição no meio do caminho", explica o economista, ao comentar que a política e as incertezas sobre a sucessão presidencial devem contaminar a percepção de risco do País. "Se fizer tudo certo, o Brasil pode recuperar o grau de investimento, mas isso num prazo longo, de, talvez, dez anos", comentou o ex-diretor do BC.

Na mesma linha, o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega considerou positiva a revisão da perspectiva, mas afirmou ser ainda cedo para que País retome o grau de investimento perdido em 2015. "Não deixa de ser uma boa notícia, um reconhecimento que o Brasil adota conjunto de medidas fiscais para atacar o risco de insolvência e é uma ação em linha com que o próprio mercado avaliava", disse. "Mas dificilmente o Brasil voltará a ter grau de investimento no atual governo, pois ainda precisa de dois degraus", completou o ex-ministro, lembrando que a agência manteve o País com o rating Ba2.

Maílson lembrou que, em geral, a recuperação do selo leva de cinco a dez anos. A Coreia do Sul foi um caso excepcional, retomando o grau de investimento em "um ou dois anos" nos anos 90, mas porque fez uma mudança radical de política econômica, ressaltou.

Segundo o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, a Moodys reconheceu em sua decisão algo que para o mercado já estava claro: o esforço do governo com o ajuste fiscal, mostrado na aprovação do regime de teto dos gastos públicos, e o arrefecimento da inflação. "O governo está seguindo o receituário das agências e está conseguindo transmitir para os agentes um tipo de sinalização bem-vinda", afirma.

Conforme Perfeito, a agência ainda deve esperar a aprovação das reformas para elevar o rating. Uma mudança de nota, segundo o economista, só deverá vir quando o governo aprovar a reforma da Previdência e deixar bem encaminhada a flexibilização da legislação trabalhista. "É isso que está em jogo."

Caso a reforma da Previdência não seja aprovada, Perfeito afirma que a perspectiva do rating soberano brasileiro pode voltar a ser negativa. O resultado de curto prazo da mudança de perspectiva do rating soberano pela Moody's deve ser, segundo o economista da Gradual, a valorização do real.

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