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Retomada do trabalho presencial põe em foco desigualdade de gênero no mercado, dizem especialistas

Sem o apoio de escolas e creches durante a volta gradual das atividades, mulheres temem perder o emprego por não terem com quem deixar os filhos

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 16h20

O isolamento social está sendo flexibilizado em grande parte das cidades brasileiras. Diversos setores da economia, como lojas, salões de beleza e escritórios, estão voltando, aos poucos, à rotina. No entanto, gestores estaduais e municipais ainda não encontraram formas de retomar as aulas presenciais. Muitas mães se veem obrigadas a voltar a trabalhar e temem perder o emprego porque, sem o apoio de creches e escolas, não têm com quem deixar os filhos.

É o caso de Nancy Kelly Carvalho, mãe de Mellany, de 8 anos, e Anthony, de 4. Com a reabertura das lojas em São Paulo, a comerciária se viu obrigada a voltar a trabalhar presencialmente. A diferença é que agora ela não tem com quem deixar os pequenos, que antes ficavam na escola. Para não deixar os filhos desamparados, vai precisar reservar metade do salário para pagar uma babá.

“Ter que escolher entre cuidar dos filhos, trabalhar e pagar aluguel é desesperador”, diz Nancy. Com a pandemia de covid-19, ela teve o salário reduzido e, desde então, precisa fazer um malabarismo com as contas. “Na maioria das vezes tenho que escolher a mais atrasada para pagar.”

Se continuar nessa situação, ela conta que o jeito vai ser pedir demissão, porque não vai conseguir arcar com a babá por muito tempo. “Com todos esses gastos, mal vai dar para comprar comida.” A comerciária não vive com o pai das crianças, que está desempregado.

Os cuidados com as crianças e com a casa deveriam ser compartilhados entre seus responsáveis, mas essa obrigação ainda recai sobre a mulher. É o que mostram os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE, de 2019. As mulheres que trabalham fora de casa passaram, em média, 18,5 horas semanais fazendo tarefas domésticas e cuidando de outras pessoas. Entre os homens ocupados, a média foi de 10,4 horas semanais.

Agora, essa diferença pode ter aumentado. Sandra Maria Silva, que é assessora especial de políticas afirmativas e professora de Administração na Universidade Estadual de Feira de Santana, diz que as mulheres estão expostas a uma sobrecarga fora do comum de trabalho doméstico, além de estarem sofrendo com o aumento da violência doméstica e da vulnerabilidade econômica. “Todas as desigualdades foram potencializadas e escancaradas com a pandemia”, afirma a professora que também leciona na Faculdade Anísio Teixeira.

No meio disso tudo, há a pressão de parte da sociedade para que a economia volte ao seu funcionamento “normal”. “Que normal é esse em que as mulheres precisam voltar ao trabalho e não sabem com quem vão deixar seus filhos? Os avós não podem cuidar das crianças porque estão isolados, a babá também deveria estar isolada, não tem escola”, contextualiza. “Os planos de retomada não têm considerado essas dimensões relacionadas ao gênero e isso é devastador.”

Sandra explica que essa situação pode fazer com que a mulher assuma uma posição ainda mais inferior no mercado de trabalho. Ela diz que, para se dedicarem totalmente ao emprego, as mães precisam ter a certeza de que seus filhos estão bem. “Se ela não tem essas garantias, ela não está plenamente no trabalho”, afirma. “Enquanto a mulher está pensando em todas essas coisas, o homem está no mercado de trabalho e está crescendo.”

Essa é a situação da secretária executiva Iara Pereira, que mora em São Paulo. Antes da pandemia, as filhas Giullia, de 10 anos, e Ana Laura, de 5, frequentavam a escola pela manhã e ficavam sob os cuidados da avó à tarde. Agora, passam o dia inteiro com a mãe, que está em home office e não sabe o que fazer se precisar voltar a trabalhar presencialmente. “Eu teria que negociar com a empresa. Não tenho com quem deixar as meninas e isso é uma preocupação muito grande para mim.”

Iara diz que não vê os pais há três meses e não poderia contar com o apoio deles para cuidar das filhas neste momento porque ambos integram o grupo de risco da covid-19. “Minha rede de apoio é muito pequena”, conta. Nesse contexto, surge o medo de perder o emprego. “Não sabemos como será o comportamento da economia do País, como tudo ficará, então é uma preocupação muito grande.”

Todos esses problemas são potencializados quando a mulher é negra, afirma Sandra. “O trabalho precário, a informalidade e a remuneração muito aquém do mínimo necessário são contextos que estão diretamente ligados à mulher negra”, afirma, lembrando que a maior parte dessas mulheres precisam dar conta da família sozinhas. “Elas estão em casa, sem renda, perdendo emprego ou na iminência de perder."

Sandra aponta que a pandemia tende a piorar a situação da mulher negra no mercado de trabalho. “Com toda essa carga monstruosa de trabalho e a pressão, ela não tem tempo para fazer uma qualificação e se colocar em uma condição diferenciada no mercado de trabalho.”

Solução pode vir com políticas públicas

Ângela Christina Lucas, doutora em Administração na área de gestão de pessoas com foco em gênero e professora da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, diz que as mulheres sem filhos também serão mais afetadas que os homens pela pandemia. “O emprego para a mulher é visto como secundário. É o primeiro a ser cortado”, justifica.

Ela diz que as empresas precisam estar atentas ao contexto de cada funcionário nesse período. Um dos exemplos refere-se à avaliação de resultados. “Não tem como comparar um homem solteiro com uma mulher responsável pela casa e filhos”, afirma. Segundo ela, uma “meritocracia a qualquer custo” pode prejudicar progressões de carreira. “E não é por falta de vontade, esforço ou competência da mulher.”

Ângela Christina lembra que a desigualdade de gênero no mercado de trabalho é "um problema cultural” e diz que é preciso investir políticas públicas específicas para a manutenção do emprego das mulheres tanto no contexto de pandemia quanto fora dela. Como exemplo, cita a garantia de uma renda mínima e o aumento do número de vagas em creches.

Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas afirmou que os protocolos de retomada das atividades precisam considerar as particularidades das mães. Aline Cardoso, secretária municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, diz que a prefeitura “apela para a sensibilização”, dos empresários.

Ela diz que, até o momento, todos os setores que assinaram protocolos de retomada se comprometeram a chamar por último as mães que não têm com quem deixar os filhos. A recomendação é para mantê-las em home office ou usar dispositivos legais como suspensão do contrato, redução da jornada e do salário ou férias.

“Por enquanto, todos os setores entenderam essa preocupação e vão dialogar com as empresas para que isso aconteça. Há um esforço para que elas não sejam mandadas embora”, diz Aline.

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