HELVIO ROMERO/ESTADAO
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ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Retomada dos investimentos está à espera da aprovação das reformas

Bancos e grandes companhias acreditam que reforma da Previdência vai ampliar a confiança na economia e destravar projetos

Circe Bonatelli, Cynthia Decloedt, Maria Regina Silva e Thaís Barcelo, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2019 | 04h00

À medida que o Congresso se mobiliza para garantir a aprovação da reforma da Previdência – e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, estima já ter os 308 votos necessários na Casa –, o ânimo de bancos e grandes empresas sobre a economia brasileira começa a melhorar. Entre os vencedores do prêmio Finanças Mais, uma parceria entre o Estadão/Broadcast e a Austin Rating, o consenso é de que as mudanças na Previdência podem ser o “gatilho” para tirar projetos ambiciosos de investimento na gaveta, fazendo a economia retomar o crescimento em 2020.

O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, disse acreditar que a reforma pode ser aprovada entre agosto e setembro. Dessa forma, os primeiros benefícios da mudança de ventos trazida pela Previdência seria sentida no final do ano. “No último trimestre do ano, vamos capturar o benefício dessas reformas e entrar em 2020 num cenário muito mais favorável para o País crescer”, destacou. O executivo cobrou ainda que, na sequência da Previdência, venham novas regras tributárias e a independência do Banco Central.

‘Empurrão’

As reformas estruturais da economia – como a da Previdência e também a tributária – deverão dar a injeção de ânimo que os empresários precisam para voltar a investir de forma definitiva, tirando projetos do papel, afirmou o diretor de relações com investidores do Banco Daycoval, Ricardo Gelbaum. O executivo ressalvou, porém, que a economia não enfrenta problemas estruturais graves, além da questão das contas públicas. “Está ruim, mas está bom. Não há inflação e os bancos estão desalavancados. O céu está claro.”

Detentor de uma carteira de US$ 400 milhões em crédito para o agronegócio, o Banco Cargill vê potencial de dobrar o ritmo de crescimento da sua carteira após a aprovação da reforma. Segundo o vice-presidente do banco, Antônio Luis Pascale, a expansão ficou na ordem de 10% nos últimos dois anos. Se a reforma da Previdência passar no início do segundo semestre, a taxa de expansão poderá subir para 15% a 20% a partir do ano que vem.

“A expectativa para a economia nacional é positiva, pois o ambiente para negócios está mais saudável de modo geral”, disse Pascale. “Mas todo mundo ainda carrega um certo conservadorismo, aguardando para tomar algum novo passo de investimento.”

Para o presidente da Bradesco Vida e Previdência e da Bradesco Capitalização, Jorge Nasser, a longa discussão da reforma da Previdência, que já se estende por quase três anos, serviu para mudar a mentalidade do brasileiro sobre a necessidade de garantia de renda com uma poupança privada. O consenso sobre a necessidade de mudar o sistema à medida que a população envelhece foi absorvida pelo cidadão comum, em sua visão.

Por causa da crise econômica, no entanto, essa disposição em debater o tema ainda não se reflete em uma corrida para os planos de previdência privada. “Digamos que está havendo uma caminhada, que pode ficar mais rápida em 2020, caso a economia cresça mais rápido e o desemprego diminua”, ressaltou. “Mas as pessoas já entenderam que essa situação não pode ficar como está.”

No time dos que estão com o pé no acelerador mesmo em um cenário ainda difícil para a economia está Leila Pereira, presidente da Crefisa. A companhia, que trabalha com crédito para pessoas “negativadas” (com restrição para tomar empréstimos), espera um crescimento de sua carteira de clientes no segundo semestre.

“Apesar de o Brasil estar parado, estamos contratando profissionais para aumentar a nossa produção. Temos mais de mil lojas no Brasil e estamos trabalhando com a expectativa de aumentar a nossa carteira”, ressaltou a executiva. Leila ponderou, porém, que as reformas são vitais para melhorar o cenário. Ela se disse “muito esperançosa” com a aprovação. “As reformas têm de passar. Sem isso, o Brasil não tem saída.”

Banco Central

Presente no evento Finanças Mais para falar sobre aspectos da atuação do Banco Central, o diretor de política monetária do BC, Bruno Serra, afirmou que a questão da reforma da Previdência tem influência em uma eventual decisão da instituição em reduzir a Selic – taxa básica de juros –, que atualmente está em 6,5% ao ano. “Não somos nós que ligamos a política monetária às reformas, mas o cenário exige”, afirmou.

Por outro lado, ele disse que a definição da meta inflacionária pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) tem pouco impacto sobre a política monetária. “Definição da meta de inflação pelo CMN não impacta estratégia atual do BC”, disse.

Bruno Serra disse que o sistema financeiro nacional tem passado por mudanças aceleradas. Nesse ambiente, afirmou que o BC tem de se preparar e que já vem agindo no cenário de fintechs, open banking e pagamento instantâneo. “É preciso também incentivar a concorrência no mercado de capitais”, afirmou.

Segundo o diretor do BC, nesse novo cenário, é necessário estudar tendências como a criação de instituições financeiras digitais e a atual “febre” das criptomoedas para que a autoridade monetária possa, em algum momento, conseguir fazer uma legislação que preveja eventuais inovações, em vez de ser obrigado a “correr atrás” das novidades.

Para que a adequação a essa nova realidade seja possível, disse Serra, a simplificação das regras atuais é uma agenda importante. Ele deu o exemplo do mercado de câmbio, que hoje dificulta operações simples, como envio de pequenos valores para parentes que moram no exterior.

Serra destacou que o cenário internacional está mais adverso e que há evidências de desaceleração global, o que tem aberto caminho para afrouxamento monetário, favorecendo economias emergentes como a brasileira. “Não tem sido diferente com o real. Não só em relação ao dólar, mas ante outras moedas emergentes”, disse.

Segundo o diretor do BC, em momentos de choques externos, o colchão de reservas do País é uma ferramenta importante de proteção. Nessa direção, admitiu que as dificuldades da Argentina, que já afetaram o Brasil no passado, voltaram a ser um ponto de preocupação.

Retomada econômica

A desaceleração global é um ponto de preocupação, mas os vencedores da 13.ª edição do Prêmio Broadcast Projeções afirmam que as principais razões para o baixo crescimento do Brasil são estruturais – e locais. Sem resolvê-las, o País corre o risco de continuar com crescimento baixo.

Para o economista-chefe do Rabobank, Mauricio Oreng, vencedor na categoria Top 10 Geral, a expansão potencial do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro hoje está em 1% e pode caminhar para 2% com as reformas, após o primeiro passo da Previdência.

Oreng afirma que a retomada não será imediata. “Mas, após a Previdência, o País pode começar a endereçar outros problemas, tanto do ponto de vista fiscal quanto de complexidade tributária e economia fechada. Aí, aos poucos, o ambiente de negócios vai melhorando.” Para 2019, Oreng prevê um avanço de 0,5% para a economia e, para 2020, de 2%.

“A principal pergunta é por que a recuperação da economia brasileira tem sido tão lenta. Há pouco tempo, o debate estava focado nos choques, mas agora, na metade do ano, fica claro que não são só esses fatores atípicos explicam a retomada lenta”, diz o economista-chefe da Bradesco Asset Management (Bram), Marcelo Toledo, segundo lugar na categoria Top 10 Geral.

A participação mais efetiva do setor privado, na opinião da economista e sócia da Tendências Consultoria Integrada, Alessandra Ribeiro, depende de o governo agilizar as agendas microeconômica e de infraestrutura. Mas isso não parece promissor diante de uma administração “geradora de crises”. O cenário da Tendências – terceiro lugar no Top 10 Geral – não contempla a aprovação de uma reforma tributária “de fato” no atual governo.

Metodologia da premiação

O Prêmio Finanças Mais entregou nesta quinta-feira, 27, os troféus aos premiados de sua terceira edição. O prêmio é uma radiografia das instituições líderes do setor financeiro, distribuídas em 15 categorias, com base na análise dos balanços relativos ao ano de 2018.

Os detalhes da terceira edição do Finanças Mais serão tema de uma revista impressa, que será vendida em bancas. Para definir os vencedores, a Austin Rating usou sua base de dados de mais de 30 anos sobre instituições financeiras brasileiras e uma metodologia própria, que faz uma análise de diferentes aspectos dos números de cada uma das empresas do setor.

Além do Finanças Mais, foram entregues ontem os Prêmios Broadcast Analistas e Projeções, da Agência Estado. A premiação, que está agora em sua 13ª edição, reconhece os profissionais e instituições que se destacaram nas estimativas de indicadores e também escolhe a corretora de destaque do ano.

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