Retomada mais forte depende da aprovação das reformas

Apesar da força externa negativa, a economia brasileira ainda tem um alto nível de ociosidade e é um dos poucos países com possibilidade de aceleração do crescimento

José Ronaldo de C. Souza Jr.*, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 13h27

Os resultados do PIB para 2018, apenas aparentemente, vieram iguais aos de 2017, mas uma análise desagregada dos dados mostra uma aceleração da demanda interna, contrabalançada pela redução das exportações líquidas. O indicador Ipea de demanda interna por bens industriais já mostrava crescimento muito maior que a produção industrial mensal, crescimento de 3,0% da demanda contra 1,0% da produção.

O comércio exterior ficto de plataformas de petróleo explica praticamente metade da variação anual das quantidades importadas e exportadas de bens. No entanto, esse fato pouco afetou as exportações líquidas (exportações menos importações). Por outro lado cerca de metade do crescimento dos investimentos é resultante de importações fictas de plataformas. Ainda assim, mesmo sem as plataformas, os investimentos teriam revertido a queda de 2017 para uma alta moderada em 2018.

As demais exportações foram muito prejudicadas pela crise econômica da Argentina – país que é um dos principais importadores de produtos industrializados do Brasil. Neste ano, isso deve ter impacto menor sobre o desempenho das nossas exportações e da nossa produção industrial. Outra influência negativa para 2019 é a piora quase generalizada das economias dos países desenvolvidos. Por último, a disputa comercial entre os EUA e a China, que impulsionou as exportações brasileiras de soja – que cresceram mais de 20% em 2018 –, pode ter efeito contrário neste ano. A China deve ampliar as compras de grãos dos EUA, o que tende a prejudicar o desempenho anual das exportações brasileiras.

Apesar dessa força externa negativa, a economia brasileira ainda tem um alto nível de ociosidade e é um dos poucos países grandes do mundo com possibilidade de aceleração do crescimento neste e nos próximos anos. O principal driver de crescimento é a melhora das expectativas, que tenderia a estimular uma retomada mais intensa dos investimentos. Obviamente, o prazo para a aprovação das reformas é crucial para o crescimento do PIB em 2019. No caso da reforma da previdência, que é a mais relevante devido ao problema estrutural das contas públicas, a profundidade das mudanças – em termos de economia para os cofres públicos – também é determinante para o desempenho da economia. 

* Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

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