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Retórica não fertiliza a terra

Por mais que o governo federal exercite elaborada retórica atenuante, é indisfarçável o impacto do crash mundial no agronegócio. As conseqüências imediatas são a queda do volume de crédito, a elevação dos juros para financiamento e a abrupta desvalorização do real ante o dólar, encarecendo ainda mais os insumos, cuja maioria é importada. O mais grave é que isso ocorre às vésperas do plantio de uma safra que poderia ser recorde.No caso do câmbio, deparamo-nos com uma triste ironia: no momento em que a cotação do dólar, pelas linhas tortas da crise do subprime, se torna favorável às exportações, os produtores não têm estoques para atender à demanda e, na outra ponta, enfrentam barreiras para adquirir insumos. Estima-se que 20% destes produtores ainda não haviam conseguido comprá-los até meados de outubro. Evidência dessa dificuldade se encontra nos fertilizantes, cuja majoração média foi de 82%, entre julho de 2007 e o mesmo mês de 2008, informa a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).O mais grave efeito, contudo, ocorre no crédito para o plantio, pois os bancos e tradings têm dificuldade para captar dinheiro e o repasse é submetido a análises mais rigorosas e spreads maiores. No Brasil, a questão é ainda mais preocupante, pois as tradings, grandes financiadoras da agricultura, já haviam diminuído a oferta de crédito e limitado a compra antecipada em razão da queda do preço das commodities. Nesse cenário, os financiamentos da fonte estatal tornam-se vitais, mas, infelizmente, têm este ano a menor participação no crédito rural em todos os tempos: 55%. Assim, não há surpresa no fato de a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) ter reduzido, de 12% para 9,5%, a previsão de crescimento do PIB do agronegócio em 2008.Medidas paliativas, como os R$ 5 bilhões anunciados pelo governo para socorrer o crédito, estão distantes de uma solução concreta, inclusive por causa da burocracia que torna morosa a chegada dos recursos ao campo. E na agricultura não vale o ditado "antes tarde do que nunca". Passada a hora do cultivo, adeus safra... A verdade é que a crise internacional expôs a fragilidade a que está submetida a produção rural brasileira pela ausência de uma política eficaz, que implica numerosos itens, a começar pela revitalização institucional do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. É preciso que tenha mais peso decisório na gestão da economia. Também se deve incentivar a prospecção de novos mercados externos, em especial economias livres de subsídios e protecionismo. Outro item é a defesa abalizada da política brasileira dos biocombustíveis nos organismos multilaterais e ação voltada à transformação do etanol em commodity. Também é necessária a atuação para remover barreiras à entrada de produtos brasileiros nos países desenvolvidos.Quanto ao crédito, a experiência ensina que o financiamento adequado não exige apenas menores juros e aumento da oferta. Requer, também, a simplificação do sistema de financiamento e mais acesso dos agricultores às linhas já existentes. Ademais, é impossível solucionar esse gargalo sem enfrentar com determinação a dívida rural, em torno de R$ 140 bilhões. Essa questão estrutural da agropecuária, que vem sendo empurrada com a barriga, é uma das causas principais de as grandes corporações dos insumos e processamento recuarem no financiamento da safra. Contudo, se o agricultor endividado não conseguir plantar, quebrará de modo definitivo.Agora é preciso solução emergencial, já que o problema não foi encarado com profundidade e coragem na recente conjuntura econômica positiva. Em meio à presente tormenta financeira internacional, será muito mais difícil enfrentá-lo. Por isso, há o risco de paralisar grande parte da produção agrícola, na qual se encontram as melhores oportunidades de o Brasil vencer a crise, exportando alimentos, item que o mundo continuará comprando. Mais uma vez, o governo Lula perdeu o trem da história. Considerando que a principal vocação nacional é a agricultura, o setor mereceria uma política maiúscula. A sua falta comprova que a terra não aceita desaforos, principalmente se a tentam semear com retórica vazia. *João Sampaio, economista, secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, é presidente do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (Consea)

João Sampaio*, O Estadao de S.Paulo

12 de novembro de 2008 | 00h00

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