Retorno deve ser avaliado conforme o grau de risco assumido pelo investidor

Sou aposentado e tenho aplicações financeiras de R$ 422 mil: R$ 166 mil em CDBs e R$ 256 mil em poupança. Esse capital ficará como uma reserva, frisando que sempre privilegio a segurança. Estou perdendo na forma como aplico o dinheiro? Deveria mudar? Quero transferir o que tenho em CDB para outra instituição financeira, preferencialmente oficial. Compensa resgatar tudo de imediato, já que os vencimentos das aplicações começarão apenas em 2011 e alcançam 2018? Ou seria preferível aguardar os vencimentos?

Fábio Gallo seudinheiro.estado@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

Toda e qualquer oportunidade de investimento guarda uma relação entre o retorno oferecido e o risco trazido pelo título. De uma maneira objetiva, não há como responder se algum investimento está trazendo perdas econômicas. Estou me referindo à oportunidade de ganhar mais em um investimento do que em outro. No caso da questão trazida pelo leitor, ele poderia ter oportunidades de ganhar mais, mas, para isso, teria de correr mais risco. É aí que entra a questão do grau de aversão ao risco do investidor, que se diz conservador. A caderneta de poupança tem trazido bons retornos dado o seu risco muito baixo. De seu lado, o CDB apresenta um pouco mais de risco, particularmente de crédito, ou seja, depende da instituição financeira emissora. Assim, o retorno tem de ser avaliado em face do grau de risco. Valores mais altos costumam ser remunerados melhor pelos bancos que estão oferecendo o CDB. Outro aspecto importante a ser considerado pelo leitor é o objetivo desse investimento, que, no caso, ele deixa claro que se trata de reserva financeira - portanto, de prazo maior. A transferência de investimentos antes do prazo sempre é custosa e usualmente não vale a pena para o investidor, pois deverá haver maior incidência tributária (para o CDB, a alíquota é decrescente quanto maior for o prazo) e descontos na remuneração dado o resgate antecipado.

Com investimento de R$ 1,3 milhão, rendimento médio de 0,6%/mês e com renda mensal de R$ 3 mil, em quanto tempo terei disponibilidade considerando gasto mensal de R$ 17 mil?

Nessas condições, haverá disponibilidade financeira por 136 meses, ou seja, 11 anos e um quadrimestre. Nesse tipo de cálculo, algumas observações são importantes. Primeiro, a despeito da previsão de aumento de juros no curto prazo, há tendência, de médio e longo prazos, de queda das taxas de juros no Brasil, assim não há garantia de que a rentabilidade de 7,44% ao ano será mantida. Em segundo lugar, devemos observar que o rendimento médio líquido pode ser menor por causa da incidência tributária e outras taxas nas aplicações financeiras. Há, também, que considerar a inflação que corrói o poder de compra da moeda. Em resumo, dependendo do tipo de aplicação, do que ocorrer com o nível de juros e da inflação no Brasil, o prazo da disponibilidade financeira poderá ser bem menor do que os 11 anos aqui calculados. Vale mais uma vez a lembrança de que um bom planejamento é essencial para que tenhamos uma vida financeira melhor.

Tenho 65 anos. Vamos supor que eu viva até os 90 anos (genética boa, pais viveram quase isso, não fumo e não bebo e faço exercícios diários moderadamente). Quanto preciso ter aplicado (aplicação de baixo risco) para usufruir de R$ 100 mil por mês?

Antes de responder à pergunta específica, vou enfatizar os alertas sobre os riscos envolvidos nesse tipo de cálculo. Além da questão da inflação, da taxa de juros e da incidência de tarifas e tributos, temos uma expectativa de vida determinada. Todas as estatísticas têm mostrado que está ocorrendo um aumento de nossa expectativa de vida. Para responder objetivamente ao leitor, considerando um horizonte de 300 meses (25 anos) e retirada de R$ 100 mil por mês, com a rentabilidade de 0,5% ao mês (base da poupança) o investimento hoje deve ser de R$ 15.520.686,40. Para termos mais uma estimativa caso a rentabilidade caia a 0,3% ao mês, o valor aplicado deve ser de aproximadamente R$19,8 milhões.

Tenho aplicações de aproximadamente R$ 650 mil em fundo DI e R$ 250 mil em CDB. Minha expectativa é de viver mais 25 anos. Quanto posso retirar mensalmente, para minha sobrevivência, dentro dos padrões atuais de rendimento de 8,65 % ao ano, sem que minha poupança acabe?

Considerando esses valores, o leitor poderá tirar a quantia de R$ 7.141,15 mensais. Mas devemos observar com mais cuidado a questão da inflação. Mesmo admitindo que no longo prazo haja a "esperança" de podermos viver com taxas inflacionárias ainda mais baixas, o fato é que hoje temos a meta de inflação em 4,5% ao ano. Assim, refazendo os cálculos, em vez de utilizarmos a taxa nominal de rendimento de 8,65% ao ano, agora usando a taxa real de 3,14% ao ano (descontando a inflação prevista), o valor de retirada diminui para R$ 4.313,84/mês.

Fábio Gallo é professor de finanças da FGV e da Puc-sp.

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