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Retorno do Ocidente?

O planeta financeiro, com seus bilhões e bilhões de dólares é um colosso de pés de barro. É muito frágil, desmorona facilmente. Carece de constância e sangue frio. Qualquer coisa o deixa exaltado. Ou o deprime. Passa do riso às lágrimas por causa de um rumor e se recupera à vista de outro.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2013 | 02h04

Há alguns meses, os financistas afastavam-se com repugnância da velha Europa. E desconfiavam mesmo dos Estados Unidos que pareciam um pouco indolentes. O interesse concentrava-se todo nos países asiáticos, especialmente China e Índia, e eles adoravam os países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). E também a Turquia e alguns outros pequenos "tigres".

Repentinamente, o discurso mudou. Há cerca de um mês, um ruído foi ouvido nos mercados. Esse rumor, que o primeiro-ministro francês, François Hollande, inteligentemente ouviu e repercutiu, dizia: "Atenção, amigos! A crise acabou na Europa, nos Estados Unidos e até mesmo no Japão. A partir de agora, o doente do universo não é mais o Ocidente".

A mudança foi brutal e geral: os investidores agora se lançam sobre as ações das grandes praças europeias e olham com desconfiança os mercados do Bric. E as bolsas ilustram a mudança.

Em seis meses, Wall Street registrou alta de 13% (o índice das 500 ações da Standard & Poor's). O índice Nikkei do Japão contabilizou um aumento de 32%. Mesmo a França, símbolo da decadência econômica europeia, parece ter saído das dificuldades. O índice CAC da bolsa avançou 10%. E o DAX, da Alemanha, 8%.

E, como numa gangorra, observamos um movimento inverso nos países que faziam avançar o crescimento mundial: no Brasil, o Ibovespa perdeu 17,8% desde 1,º de janeiro; na Rússia, a queda foi de 9%; e a Bolsa de Xangai perdeu 9%. Mumbai, na Índia, não foi mais brilhante, com uma perda de 5%.

E o desempenho econômico desses países confirmam os indicadores financeiros. O crescimento no Brasil deve ser de 0,9% no segundo trimestre. A China, que em 2011 registrava um crescimento de 9,34% ao ano, contenta-se agora com um ganho de 7,5% no segundo trimestre de 2013. O comércio exterior da Índia desmorona. Na Rússia, o Produto Interno Bruto (PIB) aumentou apenas 1,2% entre abril e junho de 2013.

Inversamente, a Europa retoma o crescimento. No segundo trimestre de 2013, o PIB cresceu 0,3%. Não é muito, mas indica que a recessão acabou. Mesmo a França, tão apática, viu seu PIB crescer, de maneira inesperada, 0,5% no segundo trimestre. Não é muito, mas se um paralítico de repente lança suas muletas para o ar e grita, como François Hollande, "Hurra!", podemos falar de uma pequena ressurreição (a confirmar, claro).

Por outro lado, essa inversão de tendência tem seus efeitos multiplicados pela política do Federal Reserve, banco central dos EUA. Vale lembrar que o Fed inundou o mercado de liquidez. Incitou assim os investidores a procurarem novos lugares propícios para suas aplicações: os países emergentes.

Para o HSBC, "as economias emergentes tornaram-se objetos de esperanças irracionais". E o Morgan Stanley confirmou: "Em junho, US$ 19,9 bilhões desertaram dos fundos especializados dos países emergentes".

Claro que o Fed fechará as torneiras para a Europa, mas os efeitos serão menos nocivos. Por quê? De acordo com o Le Monde, "se o Fed reduzir o aporte de liquidez, será mais difícil para os países emergentes, cujos fundamentos são menos sólidos".

Para os observadores, duas economias estarão particularmente expostas: Turquia e Índia. A situação da Índia é inquietante. Desde o início de maio, a rupia perdeu 15% e o PIB deve crescer 5%.

O The New York Times comenta as disposições do Fed, sem papas na língua. Jim O' Neil, o economista que inventou o Bric, escreveu: "Penso que os Estados Unidos serão um dos países que mais ganharão com essa inversão de estratégia".

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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