Tiago Queiroz/Estadão - 20/3/2020
Tiago Queiroz/Estadão - 20/3/2020

Retrato velho de uma economia

O PIB do primeiro trimestre dá uma ideia do que deverá ser 2020; o País pode ter a pior recessão da história

Sergio Vale*, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 10h27

O PIB do primeiro trimestre, infelizmente, é um retrato velho do que teremos pelo resto do ano. A covid-19 impactou negativamente apenas a parte final de março, fazendo com que os números não fossem ainda piores. Mas a abertura do PIB dá uma ideia do que deverá ser 2020.

Houve queda forte em outros serviços, basicamente itens relacionados a turismo e lazer, transporte, construção e indústria, especialmente na automobilística e essa deverá ser a tônica durante todo o ano. Alguns setores especialmente que pareciam que teriam um ano muito positivo, como petróleo e gás e atividade imobiliária, deverão amargar taxas negativas.

O preço muito baixo do petróleo não deve ser revertido este ano, impactando os investimentos da cadeia, além do setor de etanol. E a forte queda de emprego e renda afetará bens que dependem de crédito, como imobiliário e automóveis. Por outro lado, a agropecuária teve crescimento de 0,6% e deverá ser dos poucos setores, talvez o único, que apresentará bom resultado em 2020 pela manutenção das exportações de alimentos para a China.

A preocupação agora é com os números que virão. Essa provavelmente será a pior recessão da história. Se o PIB cair os 7,8% que esperamos será o pior resultado da série histórica.

As idas e vindas em relação a como lidar com a covid-19, com disputas entre Executivo e governos estaduais, impediu uma quarentena mais robusta, que nos permitiria sair mais cedo da mesma. Essas indefinições, mais do que qualquer outra coisa, cobrarão um preço adicional para o PIB que respingará no segundo semestre.

Enquanto Europa e Estados Unidos discutem a saída organizada agora, o Brasil vê o pico da doença em julho e uma volta muito lenta da atividade a partir daí. Por termos sido lenientes com a crise, o impacto econômico será mais difícil de ser contornado.

O impacto fiscal da crise levará a dívida bruta do Governo Central a números próximos de 95% do PIB no final do ano. Fazer novo ajuste fiscal no meio da saída de uma pandemia e de uma crise política longe de terminar deverá trazer consequências para o crescimento nos próximos anos. Pensar em um a política econômica de saída da pandemia precisa ser pensada o quanto antes, pois demandará um esforço político que o governo hoje não tem.

* Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados

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