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Retrocesso digital

A crise derrubou a demanda por celulares e computadores. O volume vendido desses produtos neste ano ficou no mesmo nível registrado no fim da década passada, segundo projeções da consultoria IDC, divulgadas pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). Os avanços registrados em anos recentes foram apagados pela recessão econômica e pela disparada do dólar.

Renato Cruz, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2015 | 03h00

Isso tem um impacto no acesso das pessoas à internet. No ano passado, pela primeira vez, mais da metade da população brasileira teve acesso à rede mundial. O porcentual chegou a 54,4%, de acordo com o IBGE. Mas o smartphone, principal instrumento para ampliar o acesso entre a população de menor renda, registrou queda nas vendas no Brasil pela primeira vez na história.

As vendas de celulares no Brasil devem cair 27% este ano, chegando a 51,4 milhões de unidades, volume menor do que os 52,8 milhões vendidos em 2010. A queda nos smartphones será de 13%, depois de um crescimento de 55% em 2014. 

No mercado de PCs e tablets, o cenário é ainda pior. A contração do mercado já havia começado em 2014, seguindo tendência mundial. Neste ano, fatores internos vieram a se somar ao cenário mundial. Juntas, as duas categorias devem chegar a 12,5 milhões de unidades vendidas em 2015, abaixo dos 14,1 milhões registrados em 2010, quando foram vendidos somente 113 mil tablets, recém-lançados. 

Para 2016, a previsão é de mais retração. Neste mês, acabaram os benefícios da Lei do Bem, que dava isenção de PIS/Cofins para computadores, tablets e smartphones. 

O grande problema da indústria de tecnologia da informação e telecomunicações no Brasil é que ela não é competitiva globalmente. Apesar dos incentivos tributários, os produtos fabricados aqui estão entre os mais caros do mundo. A lógica por trás da política setorial sempre foi a de criar barreiras ao produto importado e oferecer incentivos para fabricantes se instalarem no País.

Mesmo a desvalorização do real não consegue ter um impacto importante na competitividade dos eletrônicos brasileiros, pois boa parte dos componentes é importada. Neste ano, apesar da queda nas vendas de produtos finais, a importação de componentes deve ficar em US$ 19,1 bilhões, num déficit externo total do setor de US$ 27,4 bilhões. “A indústria brasileira de componentes foi dizimada na década de 90”, afirma Humberto Barbato, presidente da Abinee. “Em 2010, fizemos uma proposta ao governo para reverter esse quadro até 2020, e não aconteceu praticamente nada.”

Uma política para tornar a indústria de eletrônicos competitiva reduziria preços ao consumidor e tornaria as empresas menos vulneráveis à crise.


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