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Retrospectiva 2017

No Brasil, a queda de juros veio tarde demais para promover algum alívio para empresas e famílias

Monica De Bolle*, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2016 | 15h31

O ano de 2017 termina marcado por acontecimentos que mudaram os rumos da história no Brasil e no mundo, tal qual havia pressagiado o conturbado ano de 2016. As tensões crescentes entre os Estados Unidos e a China, a instabilidade política nos EUA e suas consequências para os mercados e para a economia americana, o agravamento da crise institucional no Brasil, o terceiro ano de recessão.

Instabilidade e turbulência são as palavras que melhor definem esse lamuriento 2017. Como muitos esperavam ao final de 2016, o primeiro ano de Trump como presidente dos EUA trouxe tumulto e um intenso agravamento dos problemas geopolíticos. A aproximação com a Rússia, para desalento dos aliados europeus, as provocações à China e o escalonamento das tensões no South China Sea, as tentativas de enfraquecer o acordo nuclear com o Irã criaram ambiente de incerteza tóxica, prejudicando o quadro internacional. A alta resultante do preço do petróleo contribuiu para as pressões inflacionárias mundo afora, sobretudo nos EUA, onde a guerra comercial com a China encareceu bens e serviços.

Os planos de Trump para propelir o crescimento por meio de investimentos maciços em infraestrutura foram prejudicados tanto pelas brigas internas com as alas tradicionais do Partido Republicano quanto pela exacerbação das incertezas provocada pela belicosidade da política externa americana. Nesse apagar das luzes de 2017, o que fica claro é que a aposta dos mercados em 2016, logo após a eleição de Donald Trump, mostrou-se demasiado míope. O crescimento esmoreceu em razão da instabilidade doméstica e global, a inflação subiu, provocando, nesse fim de ano, quadro que alguns economistas já começam a chamar de “estagflacionário”.

Os riscos para a economia americana em 2018 apontam para o agravamento da estagflação com o forte aumento do déficit público previsto, derivado de quedas adicionais nos impostos corporativos, espécie de aposta redobrada nas políticas que pioraram o quadro fiscal em 2017, e a continuidade das medidas protecionistas que marcaram o primeiro ano de mandato do presidente americano. Nas últimas semanas do ano, as taxas de juros dos títulos do governo americano subiram fortemente, trazendo nova onda de turbulência nos mercados de moedas emergentes.

O quadro externo hostil que marcou 2017 abateu o que restava da economia brasileira, que deve registrar contração de pouco mais de 1%, o terceiro ano consecutivo de recessão no País. As dificuldades de aprovar as reforma da Previdência, substancialmente diluída quando comparada à que fora apresentada há um ano, acentuam o quadro de incerteza externa e contribuem para a percepção dos investidores de que a sustentabilidade fiscal do Brasil está cada vez mais comprometida, a despeito do limite para os gastos aprovado no apagar das luzes de 2016. Cresce entre alguns analistas estrangeiros a impressão de que o País não escapará de pedido de ajuda financeira ao FMI para estancar a sangria que começa a aparecer no balanço de pagamentos brasileiro.

Apesar da convergência da inflação para a meta de 4,5% proveniente do gravíssimo quadro recessivo, o espectro de uma crise fiscal associada à fuga de recursos do País não permite que o Banco Central reduza os juros para acomodar a atividade. Ao mesmo tempo, os temores de que os Estados necessitem de mais rodadas de assistência financeira do governo federal atiçam o medo de uma crise aguda iminente. A situação dos Estados e a alta do desemprego, que alcançou os 14% neste final de 2017, aumentam os riscos de tensões sociais e de que haja nova eclosão de manifestações, como as que marcaram o início do segundo semestre deste ano.

Embora o governo Temer tenha conseguido costurar bases de apoio no Congresso, afastando as especulações sobre sua queda que circulavam com fervor há um ano, faltou-lhe margem de manobra para impedir a continuidade da recessão. O ano de 2017 serviu para que ficasse claro que o diagnóstico inicial do governo, apesar dos bons nomes da área econômica, estava equivocado. Evidentemente, não bastava apenas formular reformas de médio prazo para estancar a sangria das contas públicas. A crise semeada durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, e agravada pela falta de rumo de seu segundo mandato interrompido e pelos escândalos de corrupção, atingira os balanços de todos os setores da economia, culminando naquilo que a literatura identifica como uma “recessão de balanço”, ou uma recessão provocada por excesso de endividamento. A tentativa de aliviar os fluxos de caixa das empresas e das famílias com o pacote de 10 medidas anunciado no final de 2016 revelou-se insuficiente, como apontaram diversos economistas à época.

A esperada travessia da pinguela em 2017 ocorreu com escorregões e atropelos. Ainda não há clareza sobre como o Brasil haverá de chegar do outro lado em 2018. As incertezas políticas permanecem, já não há o que fazer para reanimar a economia no curto prazo. Primeiramente porque, como se constatou a duras penas ao longo de 2017, recessões de balanço requerem não apenas a capacidade de absorver passivos pelo governo – inexistente no Brasil ante os problemas fiscais – como também tempo para que a desalavancagem de empresas e famílias se dê em ambiente de juros mais baixos. No Brasil, a queda dos juros veio tarde demais para prover algum alívio. Em segundo lugar, o governo chega ao final de 2017 desgastado, quase tão desgastado quanto o antecessor ao final de 2015. Afinal, prometera ao longo de 2016 reverter os erros de Dilma e resgatar o País. Teve sucesso apenas parcial no primeiro de seus objetivos, falhou no segundo.

Que venha 2018. Ou, torçamos para que nada disso aconteça.

*Economista, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University

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