Reunião com Lula causa constrangimento

Presidente convocou reunião para discutir plano da Petrobrás antes da aprovação pelo Conselho

Beatriz Abreu, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

A diretoria da Petrobrás não vai assumir publicamente, mas aceitou com constrangimento o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir, no Palácio do Planalto, os planos de investimento da empresa para os próximos dois anos, antes mesmo da aprovação do plano estratégico pelo conselho de administração da companhia.A "saia-justa" é considerada por setores do governo como um ato absolutamente natural, mas evidencia a tentativa de ingerência do governo nos negócios da empresa, que também tem acionistas privados e ações negociadas na Bolsa de Valores. Foram três horas de reunião com Lula e com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, que não integra o conselho.Os diretores da Petrobrás também foram convidados para a conversa com Lula, na qual estavam todos os integrantes do conselho. Facultativamente, os diretores podem participar, inclusive, das reuniões do conselho, mas eles não opinam sobre as deliberações.O fato é que Lula recorreu à condição de representante do acionista majoritário, a União, para fazer o convite e esmiuçar, por três horas, as oportunidades de investimento da empresa. O convite para a discussão do plano foi embalado pela motivação de Lula, que queria falar do aporte de R$ 100 bilhões que o governo fez no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para estimular os investimentos privados, também no biênio 2009 e 2010. E insistir no discurso do governo de relançamento da economia e sustentação dos níveis de emprego no País.A tentativa de ingerência nos assuntos corporativos é uma questão com a qual o governo Lula não tem muitos problemas. Existe o entendimento de que a participação majoritária da União ou de fundos de pensão de estatais é condição suficiente para que o governo tenha informações sobre os planos das empresas. É assim com a Petrobrás, com a Vale e até mesmo com os bancos públicos, que estão sendo obrigados a liderar o movimento de redução das taxas de juros e dos spreads.Apenas como lembrete, quando a Petrobrás teve dificuldade de capital de giro, no ano passado, provocada pelas restrições de crédito no mercado internacional, a empresa resistiu, mas acabou atendendo ao chamado do Planalto para prestar esclarecimentos sobre a situação de caixa. Havia o temor de que a estatal teria se envolvido em operações de derivativos, no exterior. Na época, a Caixa Econômica Federal socorreu a Petrobrás. O encontro de ontem com Lula e o ministro Lobão antecedeu a reunião do conselho, que também foi realizada no Planalto. A reunião prévia terminou às 14 horas, quando Lula e Lobão se retiraram da sala. Em seguida, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, na condição de presidente do conselho, consultou os conselheiros sobre a conveniência de continuar a reunião ali mesmo. Feita a consulta, uma exigência do estatuto da empresa prevista na legislação, todos concordaram. A reunião se prolongou por mais uma hora e meia.

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