Reunião da OMC acontece em meio a crise de credibilidade

Com comércio mundial em baixa, impasse entre ricos e emergentes sobre subsídios continua no órgão

Jamil Chade, correspondente de O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2009 | 13h09

 Ministros de todo o mundo desembarcaram em Genebra neste final de semana para a reunião ministerial da OMC. Em sua pior crise de credibilidade desde sua criação há 15 anos e no pior ano para as exportações em sete décadas, a entidade inicia mais uma reunião já sabendo que não tomará qualquer decisões. A Rodada Doha simplesmente ficará de fora da agenda.

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O encontro ocorre em um momento que, segundo o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, a queda no comércio internacional será ainda maior do que se previa em 2009. A contração nos fluxos, segundo ele, será de "mais de 10%". A reunião ainda ocorre em meio ao temor de que o aumento do desemprego nos próximos meses gere uma pressão ainda maior por medidas protecionistas. Lamy indica que o protecionismo conseguiu ser evitado em grande medida graças às regras existentes na OMC. Mas barreiras ainda assim atingiram 1% do comércio mundial.

Sem tratar do principal tema - a Rodada Doha - negociadores já chamam a conferência de uma "esquizofrenia diplomática". "Essa reunião será apenas um fórum de debate", explicou o embaixador da China, Sun Zhenyu. Oficialmente, o tema da ministerial será: "A OMC, o Sistema Multilateral de Comércio e o Atual Ambiente Econômico Global".

O problema, segundo negociadores mais críticos, é que praticamente todos os maiores temas da atualidade não estão na agenda ou não são competência da OMC, entre eles a crise nos preços dos alimentos, sistema financeiro, mudanças climáticas ou a questão energética.

Obama

O evento promete também se transformar em um palco de protestos contra Obama. Hoje, o chanceler Celso Amorim preside uma reunião de países emergentes que insistirão na necessidade de que os Estados Unidos modifiquem sua posição negociadora.

Para a diplomacia brasileira, a culpa pela crise na OMC é do governo americano. Mesmo um ano depois da posse de Barack Obama, a Casa Branca ainda não tem um plano para mostrar sobre o comércio internacional. Tentando sair de uma recessão e em guerra contra o Congresso para aprovar um novo sistema de saúde, Obama não teria como propor a liberalização de um setor da economia para produtos estrangeiros. Nem muito menos cortar subsídios para os produtores agrícolas.

Entre fevereiro e março, a OMC espera realizar uma nova reunião para determinar se vale à pena continuar tentando chegar a uma conclusão para Doha.

Mas, enquanto isso e com o objetivo de se defender, a Casa Branca vem utilizando sua melhor arma: atacar. Ron Kirk, representante de Comércio de Obama, insiste que não fará uma nova oferta de liberalização do mercado americano enquanto Brasil, China e Índia não abrirem mais seus mercados para os bens industriais exportados pelos Estados Unidos. Kirk sabe que a única forma de convencer os setores americanos de aceitar um acordo seria obtendo vantagens nesses mercados.

Em setembro, o governo americano apresentou ao Brasil uma lista de setores que queria ver maior liberalização, entre eles o de papel e celulose, químicos, farmacêuticos, máquinas e equipamentos médicos. A lista não é nova e já em 2008 o pedido americano também indicava os mesmos setores.

Pelos cálculos brasileiros, a lista incluiria 3 mil itens da pauta de importação. Mas sem um esclarecimento da parte dos Estados Unidos, o comportamento que foi interpretado no Itamaraty como uma estratégia para adiar qualquer negociação.

O Brasil, em contrapartida, apresentou uma lista aos americanos pedindo maior acesso ao mercado dos Estados Unidos para etanol, algodão, tabaco, açúcar e suco de laranja. Apesar de algumas reuniões, nem nada se avançou.

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