Reunião entre Força e Fiesp sobre emprego termina sem acordo

Paulinho recuou e disse que meta do encontro não era obter acordo que flexibilizasse direitos trabalhistas

Anne Warth, da Agência Estado

13 de janeiro de 2009 | 19h12

Terminou, mais uma vez, sem acordo a reunião realizada nesta terça-feira, 13, entre a Força Sindical e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) cujo objetivo era discutir propostas que minimizassem os efeitos da crise financeira internacional no País, sobretudo no emprego. Com a ausência da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que representa 42,5% de todos os sindicatos brasileiros, o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, recuou de sua posição inicial e sustentou que a meta do encontro não era obter um acordo que flexibilizasse os direitos trabalhistas e que não exigisse a manutenção dos empregos.   Veja também: De olho nos sintomas da crise econômica  Dicionário da crise  Lições de 29 Como o mundo reage à crise     Já o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, aproveitou para retomar seu discurso pela redução da taxa básica de juros, dos spreads bancários e da carga tributária e pelo combate às importações ilegais da China. "Não queríamos aqui fazer nenhum acordo com a Fiesp, mas sim dar uma sinalização aos empresários de que estamos dispostos a negociar alternativas dentro da legislação para não demitir trabalhador", disse.   O presidente nacional da CUT, Artur Henrique da Silva, não participou da reunião por avaliar que um acordo nos termos apresentados pela Força Sindical e Fiesp enfraqueceria o poder de negociação dos sindicatos. Além disso, o dirigente ressaltou que não aceitaria qualquer acordo que resultasse na flexibilização dos direitos trabalhistas e que não garantisse o emprego do trabalhador. A Força Sindical representa hoje 19% dos sindicatos do País. "A única divergência que há entre nós e a CUT é que eles acham que não é necessário esse tipo de reunião e que os acordos têm de ser feitos na base, entre cada sindicato e cada empresa. E, realmente, precisa mesmo, senão, não tem qualquer validade", reconheceu Paulinho.   "É lógico que queremos, em troca, a garantia dos empregos. Mas tudo que estamos falando aqui não vai resolver o desemprego. Ele já aconteceu e vai continuar acontecendo", admitiu. Na avaliação dele, se não forem encontradas alternativas, janeiro, fevereiro e março serão muito pesados para os trabalhadores. "Pedimos às empresas que quiserem demitir que procurem nossos sindicatos, em nível nacional, pois eles estão dispostos a discutir formas, dentro da legislação, para não demitir", afirmou. Skaf voltou a reclamar da manutenção da Selic em 13,75% ao ano na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC). "No mundo inteiro, os juros baixaram. No Brasil, não. Isso não é crise do exterior, não. É crise brasileira. Os juros estão ajudando a piorar os efeitos da crise", declarou. "A queda dos juros vai ao encontro dos interesses do País. Isso é algo unânime entre empresários e trabalhadores", acrescentou. Skaf reafirmou que o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) está disposto a abrir todas as vagas necessárias para qualificar trabalhadores que tiverem seus contratos de trabalho suspensos durante a crise.     "Não é preciso flexibilizar lei ou mesmo criar uma nova lei. Vamos discutir aquilo que está na lei, mas precisamos pregar o entendimento", afirmou. Ao longo desta semana, sindicatos e empresários devem reunir-se para voltar a discutir alternativas como a suspensão temporária dos contratos de trabalho, banco de horas, redução de jornada de trabalho associada à de salários, férias coletivas e licença remunerada. No dia 22, empresários e trabalhadores voltam a encontrar-se com o objetivo de firmar um acordo definitivo sobre o assunto. O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, e representantes da Justiça e do Ministério Público do Trabalho (MPT) também serão convidados. Os Serviços Nacionais de Aprendizagem Rural (Senar) e Comercial (Senac) também puseram cursos e matrículas à disposição dos trabalhadores. "Essa é uma discussão que interessa ao Brasil, não só a empresários e trabalhadores", destacou Skaf.     Paulinho disse que a queda no emprego na indústria brasileira em novembro, de 0,6% ante outubro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não foi surpresa. "Nós já tínhamos sentido na prática esses efeitos e, em janeiro, será ainda pior", disse Paulinho. Segundo ele, embora setores como alimentos e bebidas e comércio ainda não tenham sido afetados pela crise, a demissão de trabalhadores, certamente, terá consequências nesses segmentos. "Não queremos fazer o acordo do Copola", disse, referindo-se à novela global "A Favorita", cujo personagem Frederico Copola, líder sindical, é interpretado pelo ator Tarcísio Meira.   Na história da Rede Globo, foi feito um acordo pela reabilitação da massa falida da empresa Fontini. Irene (a atriz Glória Menezes), viúva do dono, cheia de dívidas após um rombo criminoso, combina com Copola um acordo para reerguer os negócios, sob a aprovação dos trabalhadores, aos quais foram prometidos ações, lucros e dividendos se a situação melhorasse.   "Aquele acordo foi muito ruim, pois reduziu os salários para um terço do que se ganhava, sem reduzir a jornada", acrescentou Paulinho. Para os dirigentes sindicais e empresariais, nenhuma medida isolada vai resolver o problema do desemprego, nem a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis, nem o oferecimento de cursos gratuitos pelo Sistema S. A solução, segundo eles, está num conjunto de medidas.   "Não se sabe a duração da crise, mas um dia ela será superada, e até lá, os trabalhadores estarão qualificados para procurar os empregos melhores", disse Skaf. Sobre a dispensa de 744 trabalhadores da General Motors (GM) em São José dos Campos, no Vale do Paraíba (SP), Skaf explicou que a crise afeta o setor automotivo desde outubro e que é preciso outras medidas para manter o emprego dos trabalhadores.

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