Reunião mostra Mercosul mais à esquerda

A reunião semestral do Mercosul, que ocorre nesta quinta e sexta-feira, em Córdoba, na Argentina, será marcada por dois eventos: a assinatura de um acordo comercial com Cuba e a participação pela primeira vez da Venezuela como membro pleno. Para alguns analistas, esses dois fatos são exemplos de que o bloco - que desde 1991 reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai - está dando uma "guinada à esquerda"."Ficará impossível uma eventual negociação do Mercosul com Estados Unidos e ainda mais difícil a negociação que se arrasta com a União Européia", disse o cientista político Rosendo Fraga, do Centro de Estudos União para a Nova Maioria."Se Hugo Chávez (presidente venezuelano) insistir em manter uma agenda política agressiva, isso poderá gerar instabilidade no Mercosul", completou o professor da escola de governo da Universidade Torcuato Di Tella, Sergio Berenztein.No entanto, para o cientista político Roberto Bacman, do CEOP, a entrada da Venezuela representa "fato positivo" e a "união" da América Latina. Peso econômico Ouvidos pela BBC Brasil, Fraga, Berenztein, Bacman e o economista Dante Sica, ex-negociador argentino no Mercosul e atual consultor da Abeceb, concordam que o bloco ganhará maior peso econômico com as últimas iniciativas."O Mercosul deixa de ser, principalmente, exportador de alimentos e bens industriais (neste último caso, graças ao Brasil) e passa a ter também perfil de exportador de energia", disse Sica. A Venezuela é um dos maiores produtores e exportadores de petróleo do mundo e especula-se que a Bolívia, rica em gás, poderia ser o próximo país a aderir, como membro pleno, ao Mercosul. Mas ainda não se sabe quando isso ocorreria, e Morales também não confirmou a possibilidade, publicada na imprensa argentina. Na reunião presidencial em Córdoba, chamada de 30ª Reunião do Conselho do Mercado Comum e de chefes de Estado, existe expectativa para o possível desembarque de Fidel Castro. Ali, a Argentina passará para o Brasil a presidência temporária do Mercosul. Será uma das poucas reuniões de cúpula do bloco que não estará marcada pelas diferenças comerciais entre o Brasil e a Argentina, cujo comércio bilateral cresceu mais de 16% (para cada um destes dois sócios) no primeiro semestre de 2006.Mas o Brasil, durante sua presidência temporária do Mercosul, terá desafios como o de tentar atender às insatisfações do Paraguai e do Uruguai, sócios menores do bloco, além das negociações com a União Européia.Nestes últimos seis meses em que a Argentina foi presidente temporária, foram registradas, além da insatisfação paraguaia e uruguaia, diferenças bilaterais dos outros participantes desta integração, incluindo os sócios, Bolívia e Chile. "Com a chegada da Venezuela ao bloco, Paraguai e Uruguai vão poder aumentar suas exportações dentro do Mercosul. E isso realmente é positivo para eles (os sócios menores)", amenizou o secretário de Relações Econômicas Internacionais da Argentina, Alfredo Chiaradia, durante café da manha com a imprensa estrangeira em Buenos Aires. Nacionalização Neste último semestre, a decisão do presidente boliviano de nacionalizar os hidrocarbonetos atingiu, diretamente, os mercados brasileiro e argentino.O Brasil ainda negocia a questão com a Bolívia, e o presidente Lula poderia ter, em Córdoba, reunião bilateral com Morales. No mês passado, os governos da Bolívia e da Argentina chegaram a entendimento para a alta do preço do gás boliviano vendido ao mercado argentino. Fato que levou o governo Kirchner a anunciar ajuste do preço do produto repassado ao Chile.Nesta rede de decisões e efeitos, parlamentares da oposição responsabilizaram a presidente chilena, Michelle Bachelet, pela falta de previsão à medida argentina. A medida, segundo analistas chilenos, teria contribuído para intensificar a crise no governo que levou Michelle a substituir três de seus ministros, na semana passada.Fronteira Ao mesmo tempo, a Argentina e o Uruguai mantêm a queda de braço pela construção de duas fábricas de pasta de celulose, às margens do rio Uruguai, na cidade de Fray Bentos, em frente à cidade argentina de Gualeguaychú.Concretamente, nestes últimos seis meses, sob a presidência temporária da Argentina, foi registrada a aliança com o presidente Chávez e concluiu-se o acordo comercial com o governo cubano de Castro, abrindo-se caminho para um tratado de livre comércio da ilha caribenha com o Mercosul.Mas, como reconheceram negociadores argentinos e brasileiros, ainda falta muito para que o bloco seja uma união aduaneira perfeita, sua idéia original.Nesta reunião de Córdoba, serão assinados, então, acordo de preferência de tarifas com Cuba (será o sexto do bloco), acordo para eliminar a burocracia dos que vivem nas regiões de fronteira, seja para fazer compras ou trabalhar no país vizinho, além da formalização da entrada da Venezuela, do início de negociações comerciais com o governo do Paquistão e de um entendimento que beneficiará setores de serviço para que se instalem no outro país do bloco.O Brasil, por exemplo, segundo Chiaradia, vai liberar este mercado para setores como agências de turismo e telecomunicações. Em Córdoba, será realizada ainda a primeira reunião paralela do bloco. Espera-se que Chávez e Morales (e Fidel, se ali estiver) participem da chamada "Cúpula dos Povos", com a presença de representantes de diferentes grupos sociais.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.