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Reúso da água

Mesmo que volte a chover dentro da média histórica, a crise do abastecimento de água em São Paulo exigirá providências públicas até hoje subadotadas.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2014 | 02h03

O Sistema Cantareira, responsável por 47% do abastecimento da região metropolitana de São Paulo, não deve se recuperar em menos de três anos - adverte o especialista Benedito Braga, presidente do Conselho Mundial da Água.

Este é um quadro de crise que não se reverte só com descontos na conta para quem consome menos. A tarifa da água é baixa, especialmente neste quadro de escassez. E desconto sobre uma conta baixa tende a apresentar respostas pouco significativas.

O reúso é um dos recursos ainda pouco explorados que poderiam ser acionados desde que houvesse políticas apropriadas para isso. Trata-se do reprocessamento da água servida que pode concorrer para outras finalidades, como resfriamento de equipamentos industriais, lavagem de carros e irrigação.

"Estamos poluindo os rios mais próximos e indo buscar água cada vez mais longe. Precisamos mudar esse paradigma", adverte o diretor do Centro Internacional de Referência em Reúso de Água, Ivanildo Hespanhol.

As práticas de reúso de efluentes, autorizadas pela Resolução 54/2005 do Conselho Nacional dos Recursos Hídricos (CNRH), alcançam cerca de 70% das indústrias de São Paulo, como apontam estimativas da Fiesp. Um dos exemplos mais notáveis é o projeto Aquapolo na Estação de Tratamento do ABC. Trata-se de parceria entre a Sabesp e o Grupo Odebrecht que fornece até mil litros de água de reúso por segundo ao polo petroquímico do ABC.

Hespanhol adverte que ainda é pouco. "É preciso expandir o reúso para fins potáveis, como já acontece nos Estados Unidos, Cingapura e Namíbia." Ele lembra o caso da agricultura, consumidora de cerca de 70% da água dos rios e mananciais do Brasil, que não é alcançada pelo reúso. "Temos tecnologia para transformar qualquer esgoto em água potável. Alguns mananciais que abastecem São Paulo, como a Billings, têm qualidade similar ao esgoto que queremos tratar."

A população do País ainda não superou o preconceito de que água de reúso é água de esgoto, o que pede programas de esclarecimento público. Mas há também as barreiras normativas, consideradas excessivamente restritivas, por exigirem da água de reúso qualidade até superior à utilizada em piscinas de clubes.

A falta d'água normalmente empurra a população para soluções não convencionais. Uma delas é o recurso aos poços artesianos. Hoje, a utilização dessa água subterrânea por usuários privados, como indústrias, shopping centers, clubes e condomínios, depende de outorga do Departamento de Água e Energia Elétrica (DAEE), que tem 27.312 poços cadastrados no Estado e 2.082 na capital paulista. O Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas da USP (Cepas), no entanto, estima a existência de um número 40% mais alto, formado por poços clandestinos.

Esses poços privados de captação de recursos hídricos subterrâneos respondem hoje por 15% da demanda atual da região metropolitana de São Paulo. "Esta crise é uma excelente oportunidade para que as autoridades não só redobrem a fiscalização, mas planejem a utilização racional desses recursos", diz Reginaldo Bertolo, diretor do Cepas. /COLABOROU LAURA MAIA

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