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Revisão positiva para o PIB é um efeito matemático chamado 'herança estatística'

Mais do que uma melhora substancial, de fato, no fôlego da atividade econômica, a revisão é o impulso deixado de um ano para outro

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 04h00

Depois do desempenho surpreendentemente positivo no primeiro trimestre, é cada vez maior o número de analistas que passou a projetar um crescimento de 5,0% ou mais do PIB em 2021. Mas estaria o brasileiro sentindo no seu dia a dia a economia avançando nesse ritmo?

O consenso das estimativas dos analistas para o desempenho do PIB neste ano vem melhorando nas últimas semanas, conforme a pesquisa Focus, do Banco Central. No fim de 2020, essa estimativa era de crescimento de 3,32% para 2021. No mais recente boletim Focus, essa projeção já subiu para 3,96%. 

Não à toa, aumentaram as previsões apontando para expansão mais forte do PIB neste ano. Os bancos Itaú e Fibra estimam alta de 5,0%. O Goldman Sachs prevê crescimento de 5,5%. E o Bank of America, avanço de 5,2%.

Segundo o IBGE, o PIB cresceu 1,2% no primeiro trimestre ante o último trimestre de 2020, superando o consenso das projeções dos analistas, de alta de 0,70%. Até há pouco tempo, os economistas esperavam uma contração da economia entre janeiro e março em razão, entre outros fatores, do fim do auxílio emergencial. Mas a atividade mostrou resiliência maior do que o imaginado. Além disso, a segunda onda da pandemia teve um impacto menor na economia do que em 2020.

Mais do que uma melhora substancial, de fato, no fôlego da atividade econômica resultante de um mercado de trabalho aquecido e de um dinamismo em vários setores da economia, a revisão das projeções para 2021 reflete, em grande parte, um efeito matemático, o chamado carrego ou herança estatística, que é um impulso deixado de um ano para outro.

Isso porque, no Brasil, o PIB é calculado levando-se em conta a média dos quatro trimestres de um ano em relação à média dos trimestres do ano anterior. Toda vez que ocorre um resultado muito positivo no primeiro trimestre do ano, diante do efeito-base, mesmo que o PIB fique parado nos trimestres restantes, a média do ano será mais alta. E vice-versa, quando há uma contração.

A queda de 4,10% do PIB em 2020 já havia deixado uma herança estatística de 3,60% para 2021. Isso significa que o consenso das estimativas de PIB neste ano na mais recente pesquisa Focus corresponde a um crescimento pouco acima de zero.

“A percepção é, realmente, de que a economia está se recuperando, mas, em termos de sensação da população nas ruas, não haverá diferença entre um crescimento entre 3,0% e 3,5% que todo mundo esperava na virada do ano para uma expansão de 5,0% em 2021 de algumas projeções agora”, diz Luiz Felipe Laudari, diretor de investimentos da Mauá Capital. “É um efeito mais matemático do que, de fato, um crescimento mais acelerado.”

Segundo ele, a taxa de desemprego de 14,7% no trimestre até março, se ajustada para a PEA (população economicamente ativa) histórica, com base na taxa de participação histórica, seria, na realidade, de 21%. “É possível imaginar a economia ganhando tanta tração com essa taxa elevada de desemprego?”, argumenta. “Sem falar na grande quantidade de empresas fechando em razão da pandemia, ou seja, a percepção das pessoas é de uma economia bem mais frágil do que estamos vendo nos números.”

Para Laudari, a massa salarial real vai se recuperar de forma mais lenta. Além disso, ele observa que é comum, após grandes crises, haver aumento de produtividade na economia. “As empresas descobrem que podem produzir a mesma quantidade que produziam antes da crise com menos mão de obra e com isso, na prática, a taxa de desemprego termina o período de recuperação acima do que estava antes da crise”, argumenta.

Todavia, mesmo que a sensação da população seja a de que a economia está rodando a um ritmo bem menor do que um crescimento de 5,0%, um resultado dessa magnitude, mesmo que por efeito estatístico, pode ter ainda um impacto positivo: o de melhorar a confiança dos agentes econômicos, incentivando as decisões de investimentos de empresários e de gastos de consumidores.

O outro lado da moeda de uma herança estatística impulsionando o PIB de 2021 é que, no ano que vem, o cálculo será afetado justamente por uma base maior, daí vários economistas reduziram suas previsões do crescimento para 2022. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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