Revista de 1850 insiste no formato impresso

Editor da Harper’s segue firme em sua defesa do formato impresso e da cobrança pelo acesso do conteúdo na versão digital

Ravi Somaiya, The New York Times

11 de agosto de 2014 | 16h33

Quando John R. MacArthur, editor da Harper’s Magazine e zeloso defensor das virtudes do jornalismo impresso, se senta à mesa para escrever, ele tem três opções - uma máquina de escrever, um antigo PC de gabinete bege e um moderno computador desktop da Apple.

Para se corresponder com amigos literários como William T. Vollmann e Robert A. Caro, que gostam de sentir a espessura do papel e reparam nos contornos da tipografia, ele escolhe a máquina de escrever, comprada décadas atrás na Tytell, em Fulton Street, Manhattan.

Os artigos ele compõe no PC, usando o programa WordPerfect, pois acha que o Microsoft Word discute com ele. Os textos são salvos em disquetes de 3,5 polegadas.

É somente para e-mails, uma necessidade moderna que contrasta com as texturas de couro, madeira e capas de livros do seu escritório de canto, com vista para a Broadway em Greenwich Village, que ele se volta para o Mac.

Foi no PC que MacArthur escreveu uma série de palestras e artigos há dois anos que fizeram dele o maior evangelhista da restauração daquilo que ele enxerga como era dourada do jornalismo - quando palavras eram impressas no papel e vendidas em revistas ou livros.

Ele descreve o dia em que se viu preso num corredor no início da década de 2000 encurralado por “uma pequena turba de pessoas que só posso descrever como ‘jovens’”. De acordo com ele, os jovens exigiam que ele abrisse a revista para os leitores na internet. MacArthur respondeu dizendo que esquecessem o assunto. Para ele, a internet “não era muito mais do que uma gigantesca máquina de xerox” projetada para roubar o trabalho de editores e escritores.

Ele foi alvo de piada e chamado de neoludita. Mas a briga só o tornou mais convicto de suas opiniões, refletidas mensalmente em sua revista. Fundada em 1850, a Harper’s se tornou lar do jornalismo literário e da ficção sofisticada com o passar das décadas. Alguns de seus primeiros participantes, como Mark Twain e Winston Churchill, poderiam reconhecer o tom da contribuição de outros como Jonathan Franzen e John le Carré.

 

Rvista foi fundada em 1850 e valoriza até hoje os aspectos gráficos e a qualidade do papel

Mas o panorama da mídia mudou. Editoras como Tribune e Gannett estão se desfazendo de suas operações em mídia impressa e se concentrando nos ramos da televisão e das plataformas digitais. Outras misturaram o formato online com o digital. E um terceiro grupo de editoras chegou até a se afastar com firmeza da internet.

Ele se sente justificado, em parte pelo apoio que ele diz receber de pares como Jann S. Wenner, editor da Rolling Stone, que orquestrou campanhas publicitárias exaltando as virtudes da mídia impressa.

Mas MacArthur não pretende ceder. A Harper’s, que não tem fins lucrativos e é financiada por uma fundação, está disponível na internet há uma década. Mas, para ler algo, é preciso assinar também a edição impressa. Ainda não sabemos se a história irá julgá-lo como visionário determinado ou mártir teimoso.

MacArthur, de cabeleira grisalha e estilo pouco formal aos 58 anos, é dono de uma intensidade exasperada. “Não tenho nada contra as pessoas que procuram suas páginas na internet para desabafar”, disse ele. “Se quiserem fazê-lo, não vejo problema nenhum. Mas, na minha opinião, isso não é o mesmo que ser escritor ou jornalista.“

Ex-jornalista do Chicago Sun-Times e da United Press International que se tornou o editor da Harper’s no início dos anos 1980, ele recebe alertas de notícias num iPad e nos laptops em suas casas no Upper West Side e em Sag Harbor, Nova York. Mas seus hábitos continuam analógicos. Ele imprime os artigos para lê-los. Durante entrevista recente, foram várias as ocasiões em que ele não conseguiu se lembrar das minúcias de um fato para sustentar sua argumentação. A versão dele de uma pesquisa no Google consiste em gritar para um membro da equipe, que prontamente trazia a informação solicitada.

Uma visita à redação da Harper’s evoca uma era mais amena. Não há telas mostrando informações da web, nada de peças arquitetônicas de vidro nem cadeiras modernistas de cores chamativas. O lugar lembra mais o museu colonial de Williamsburg, Virgínia, do que Williamsburg, Brooklyn.

“Estamos tentando criar uma ilha de sanidade econômica e literária”, disse MacArthur. Ele não se sente mais sozinho nessa empreitada. “O mundo está voltando a pensar na mídia impressa e na restrição ao acesso gratuito às publicações na internet”, disse ele.

De fato, algumas editoras voltaram a contemplar as páginas de papel de qualidade e o cheiro da tinta. “É a satisfação de se estar num agradável jantar com a mesa bem posta, em torno da qual seis ou sete convidados mantém um diálogo interessante e informado, em vez de estar num ginásio com 10 mil pessoas gritando”, disse Tyler Brûlé, editor da revista de cultura internacional Monocle, que obtém cerca de 70% de sua renda com as edições impressas.

Para Brûlé, uma revista é uma experiência contemplativa, que pode ser melhor desfrutada na forma física, livre da necessidade de recarregar baterias. É também um rótulo, disse ele, algo a ser exibido com elegância, como malas projetadas por estilistas.

Tradução de Augusto Calil

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