Filipe Araújo/Estadão
Filipe Araújo/Estadão

Revolução do 'fabrique você mesmo' ganha impulso no Brasil com oficinas

Faça o que quiser. Projeto Fab Lab, criado no MIT, ganha segunda 'franquia' em São Paulo e primeiros eventos convidam público a construir máquinas ou sua própria bicicleta; atividades são gratuitas e criadores esperam propagar conceito de inovação aberta

Murilo Roncolato, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2013 | 03h13

De garagem não tem nada. O espaço fica no primeiro andar de um prédio histórico da rua Maria Paula, no centro de São Paulo. A escolha parece ter sido de propósito. João Artacho Jurado projetou esse e outros edifícios da cidade sem nunca assinar as construções por não ter o registro de arquiteto. Artacho aprendeu tudo por conta própria. Hoje, seu edifício abriga um grupo de jovens interessados em criar qualquer coisa, compartilhar o que sabem e buscar na internet o necessário que faltar. Uma lógica que, assim como Artacho, coloca em cheque as formalidades dos registros profissionais e da indústria tradicional.

Ali ganhou residência o Garagem Fab Lab, a segunda locação em São Paulo - a primeira fica na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - que segue o conceito inventado pelo professor Neil Gershenfeld, do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Neil conseguiu financiamento para comprar maquinário útil para "fabricação digital", ou seja, máquinas que funcionam com comandos dados por um computador. O professor montou o laboratório e se preparava para inaugurar uma aula chamada "Como fazer (quase) tudo?". Para sua surpresa, a sala lotou e partir daí surgiu o Fab Lab (abreviatura em inglês para laboratório de fabricação).

Em operação há três meses, o Garagem ainda procura cumprir com as regras para ser um Fab Lab: ter o kit de máquinas sugerido pelo MIT (veja ao lado) e seguir a carta de princípios, que diz sobre objetivos (prover apoio técnico e ferramental a projetos e pessoas) e condições do trabalho desenvolvido (tudo deve ser compartilhado em rede). À frente do projeto estão os arquitetos Eduardo Lopes e Heloísa Neves.

Heloísa está viajando pela Europa, visitando Fab Labs, com um grupo de brasileiros interessados em abrir "franquias" em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Recife. Lopes se esforça para manter os dois projetos abertos ao público (chamados "open days") atuais em andamento: às quartas, construção de uma máquina de corte a laser; às quintas, fabricação de uma bicicleta. Para fazer dinheiro, dá palestras, workshops e cursos sobre open design e inovação a quem quer estar à par do que o ex-editor da Wired, Chris Anderson, chamou em seu livro Makers (Editora Campus) de a "nova revolução industrial".

"Para construir qualquer coisa tudo o que você precisa é de amigos, cerveja e internet", brinca Pedro Terra, artista plástico e parceiro de Lopes na noite da bike no Fab Lab. "Inovação só nasce com pessoas criativas em um ambiente legal e livre". Por isso, a Garagem tem iluminação neon, cerveja à disposição, móveis feitos à mão (por Terra), impressoras 3D espalhadas e, às vezes, música boa rolando. Na reunião da última quinta, Terra avisou: "Tudo aqui tem que ser inventado, não temos nada pronto".

Ao Link, ele explica que a meta é instaurar na cabeça das pessoas que é possível construir coisas, de alta tecnologia ou ordinárias, itens do dia a dia, como a tal bicicleta. E isso só é possível pelo acesso à internet. "A internet é aberta, os bits estão lá, as informações. Tudo o que aprendi veio da internet porque lá, em vez do bolo, as pessoas trocam receitas. Pegar um projeto, melhorá-lo e colocá-lo de volta aberto na web desencadeia essa evolução natural", diz Terra, que crê que a indústria tradicional está começando a entender que vale mais lucrar não pelas patentes, mas pelo volume de máquinas e produtos vendidos. "Isso faz a economia girar. Nós, por exemplo, não cobramos pelos bits", diz Lopes, referindo-se ao conhecimento passado, "mas pela conveniência do espaço".

Para Heloísa, o Fab Lab é parte da revolução citada por Anderson, que afeta não só a postura do cidadão, tornando-o um "consumidor ativo", mas também a indústria. "Estamos passando por um processo de criação de modelos alternativos de produção e serviços", diz. "A indústria vem se interessando muito pelo movimento porque precisa de uma filosofia baseada em novos processos de trabalho e fabricação. Mas esta revolução está ligada mais à ideia de 'aprender global e colaborativamente' do que uma revolução simplesmente de maquinário."/ COLABOROU CAMILO ROCHA

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