Infográficos/Estadão
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Revolucionando os agentes da revolução

Os fundos de investimento em capital de risco, que viraram especialistas em identificar empreendimentos transformadores, vivem seu próprio momento de transformação

The Economist

21 Maio 2015 | 02h04

Talvez seja imprudente comemorar como se estivéssemos em 1999, mas o setor de capital de risco tem motivos para abrir algumas garrafas de Dom Pérignon. Nos três primeiros meses de 2015, os fundos de investimento em capital de risco (CR) americanos realizaram inversões no valor de US$ 13,4 bilhões, dando continuidade à melhor fase do setor desde o ano 2000, antes do estouro da bolha pontocom. A recuperação serviu para jogar mais lenha na fogueira de um debate que já se mostrava acalorado: o setor de tecnologia estaria começando a fermentar de novo? Além disso, o bom momento atraiu a concorrência de uma série de formas alternativas de financiamento, colocando a questão: será que o setor de CR, que fomentou tantas empresas revolucionárias, sofrerá ele próprio uma revolução?

Trata-se de uma área da economia que não mudou muito desde que surgiu nos Estados Unidos, no fim dos anos 50. A maioria das sociedades de CR faz uso mínimo de tecnologia. E funcionam como "fraternidades" (embora quase que exclusivamente masculinas: só 6% dos sócios são mulheres) que investem em negócios de alto risco. Em condições ideais, seu dinheiro vem acompanhado de dois outros recursos ainda mais escassos: orientação e experiência para as jovens empresas, sob a forma de executivos tarimbados com assento em seus conselhos de administração, e acesso à rede de contatos das companhias de CR. "É um setor baseado em relações pessoais", explica Reid Hoffman, da Greylock Partners, uma das mais importantes companhias do ramo. "Não posso pedir para outra pessoa fazer por mim uma contratação importante", diz Peter Fenton, da Benchmark Capital, outra companhia de destaque no Vale do Silício.

Em virtude disso, o setor carece de algo que os capitalistas de risco consideram essencial para a maioria das startups de tecnologia: "escalabilidade", isto é, a capacidade de manter, ou aprimorar, o desempenho quando crescem as demandas operacionais - em outras palavras, é um setor em que não é possível crescer rapidamente. Acrescentar sócios a uma companhia de CR geralmente resulta em lucros menores. "Quanto mais gente você põe em volta da mesa, maior é a aversão ao risco", diz Andy Rachleff, da Graduate School of Business da Universidade de Stanford e um dos fundadores da Benchmark Capital.

No entanto, o processo de criação e estruturação de uma empresa vem evoluindo de forma acelerada. Graças à computação em nuvem e aos smartphones, entre outras coisas, hoje é muito mais barato e fácil começar um negócio. Isso pôs um grande número de jovens empresas à procura, pelo menos num primeiro momento, de quantias desprezíveis para uma companhia de CR: são comuns as rodadas iniciais de investimento que ficam na casa das dezenas de milhares de dólares, em vez dos milhões que predominavam na época da bolha pontocom.

Por outro lado, quando as startups encontram um grande mercado, hoje em dia elas precisam de muito mais dinheiro para crescer. A contratação de desenvolvedores de primeiro time, a conquista de clientes e a abertura de escritórios no exterior às vezes consomem centenas de milhões de dólares. E isso, em geral, tem de ser feito em alta velocidade, pois muitas startups operam em mercados que funcionam na base do "vencedor leva tudo". Outro fator que aumenta ainda mais a necessidade que as startups têm dos investimentos de capitalistas de risco é que, desencorajadas pelo excesso de burocracia, poucas delas se apressam em lançar ações em bolsas de valores.

Ao mesmo tempo, os baixos retornos oferecidos por outros investimentos, desviaram mais dinheiro para esse tipo de empreendimento. Segundo a National Venture Capital Association, só nos Estados Unidos, os fundos de capital de risco captaram mais de US$ 30 bilhões em 2014 - quase o dobro do valor levantado no ano anterior. Atualmente, esses fundos administram recursos de US$ 157 bilhões. No entanto, outras formas de financiamento para empresas novas também vêm crescendo aceleradamente. Exemplo: os Estados Unidos ostentam hoje mais de 300 mil "anjos" - indivíduos ricos que investem diretamente em negócios recém-criados, segundo o Centre for Venture Research.

A "fase da semeadura", quando uma startup obtém seu primeiro investimento, é especialmente vulnerável a transformações. A maioria das novas empresas é um experimento de resultado incerto; investir é com frequência um caso de "atirar para todos os lados e rezar para que ao menos um disparo atinja o alvo". Muitas startups hoje são lançadas em sites de Crowdfunding (financiamento coletivo), onde podem levantar patrimônio ou dinheiro para produtos destinados aos próprios investidores. As empresas também podem solicitar recursos na AngelList, uma espécie de rede social para empreendedores e "anjos". Simultaneamente, "aceleradoras", como a Y Combinator e a Techstars, investem pequenas quantias em empreendedores com ideias brilhantes, aplicando um polimento neles antes de apresentá-los a companhias de CR.

Outro grupo de recém-chegadas à "fase da semeadura" são companhias de CR que limitam o tamanho e o número de seus investimentos a fim de poderem se concentrar na ajuda a suas pupilas. Entram nessa categoria desde os "microfundos", com ativos de menos de US$ 100 milhões, até fundos um pouco maiores, como o First Round Capital, da Filadélfia, e o Union Square Ventures, de Nova York, e o Mosaic Ventures, de Londres.

Na outra ponta do espectro, a "fase final", quando as empresas precisam mais de recursos do que de orientação, também há muitos novos participantes. Grandes investidores institucionais passaram a garantir a startups boa parte de seu capital. Recentemente, quando a Zenefits, que presta serviços online de folha de pagamento, captou US$ 500 milhões, a rodada de investimentos foi liderada pelo grande gestor de ativos Fidelity e pela grande companhia de private equity TPG. Negócios assim são, fundamentalmente, "IPOs fechadas". Segundo a agência de informações financeiras CBI Insights, no caso das empresas de tecnologia, esse tipo de financiamento hoje supera as IPOs públicas.

O modelo foi inaugurado pelo fundo russo DST Global, que, de 2009 em diante, investiu mais de US$ 500 milhões no Facebook, permitindo que a rede social adiasse a abertura de seu capital. Na época, essas IPOs fechadas tiveram um bom acolhimento, mas agora são cada vez mais vistas como um incentivo ao que Bill Gurley, da Benchmark, chama de "bolha de risco". Grosso modo, os investidores que se concentram na fase final do financiamento a startups, escreveu ele há pouco tempo, "abandonaram suas tradicionais análises de risco" para adquirir participações em um "unicórnio" - startups, já não tão raras assim, cujo valor supera US$ 1 bilhão (o último levantamento revela que há mais de 100 dessas criaturas mágicas espalhadas pelo mundo).

Com tantos concorrentes pressionando o setor, por baixo e por cima, muitas companhias de CR vêm optando por preencher o gap entre a fase inicial e a final. Mesmo nesse segmento, porém, a pressão é cada vez maior, graças a forças tecnológicas que o próprio capital de risco ajudou a liberar, argumenta Fred Destin, da unidade europeia da Accel, outra companhia do Vale do Silício.

Mídias online, do CrunchBase ao Twitter, possibilitam que os empreendedores estejam a par dos negócios fechados pelas companhias de CR. As startups também estão muito mais conectadas e falam sobre suas experiências nas inúmeras conferências online de tecnologia. A maioria quer ser financiada pelas marcas de CR mais conhecidas. Por conta disso, o mercado se tornou bem mais difícil para fundos mais frágeis, muitos dos quais já entraram em hibernação ou simplesmente encerraram suas atividades.

Entre os líderes as coisas também não andam fáceis. Os mesmos atributos que tornam o crescimento difícil para as companhias de CR mais prestigiosas, serviram para protegê-las, em certa medida, da concorrência. Não há como rivalizar com suas redes de contatos, e é rara a experiência que elas têm em levar uma startup desconhecida ao estrelato. Ainda assim, elas atuam num ambiente em que nem sempre é possível deixar de desferir cotoveladas.

Talvez hoje seja mais barato abrir uma empresa, mas nos Estados Unidos ainda são apenas cerca de 15 por ano as startups que têm alguma chance de tirar a sorte grande. Nos últimos 30 anos, só 7% dos negócios do setor geraram retornos dez vezes maiores que o investimento inicial, e esses retornos representam 65% dos lucros, calcula Fred Giuffrida, do Horsley Bridge Partners, um "fundo de fundos" que espalha suas apostas por diversas empresas de CR.

Para conquistar esses negócios, os capitalistas de risco com frequência acabam estabelecendo um leilão entre si, e esse é um dos motivos que fizeram o valor das empresas de tecnologia atingir as alturas estratosféricas atuais. Abundam as histórias de empreendedores que ligam para um escritório após o outro das companhias de CR do Vale do Silício. E, a cada ligação, a valorização de suas empresas aumenta um pouco.

A concorrência mais acirrada não se limita aos recursos financeiros. Quando Marc Andreessen e Ben Horowitz criaram sua companhia de CR, em 2009, esses dois ex-empreendedores optaram por um modelo novo, de caráter mais corporativo: seus principais sócios ainda se encarregam das decisões de investimento, mas dezenas de sócios-especialistas ajudam nas áreas mais variadas, do recrutamento às relações públicas. Essa abordagem - aliada a um marketing inteligente - fez sucesso entre as startups, colocando a Andreessen Horowitz entre as mais procuradas no setor de CR.

As companhias mais antigas seguiram o exemplo. A maior parte delas agora conta com ao menos um sócio-especialista - com frequência encarregado de prestar auxílio às startups na guerra por novos talentos. Muitas também usam softwares para acompanhar as atividades de empreendedores, parceiros de negócios e tendências tecnológicas. Algumas tentam dotar suas redes de contatos de "escalabilidade", segundo Danny Rimer, da Index Ventures, uma empresa com sede em São Francisco e Londres. Entre outras coisas, isso estimula as trocas entre os executivos das empresas de seu portfólio. Por ora, as mudanças são pequenas - mas são raras as revoluções que no final não produzem algumas vítimas.

THE ECONOMIST, TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O ARTIGO ORIGINAL, EM INGLÊS, PODE SER ENCONTRADO EM WWW.THEECONOMIST.COM

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