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Richard Back, da XP: 'Reformas só devem ser votadas em 2023'

Para analista político, em relação à questão fiscal o ministro Paulo Guedes deve atuar agora mais como um defensor que como um centroavante

Entrevista com

Richard Back, chefe de Estratégia Macro e Política da XP

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 10h00

Com a pandemia da covid-19 marcando o calendário político desde o ano passado, as reformas estruturantes aguardadas pelo mercado financeiro - como a administrativa e a tributária -, devem ficar para 2023. Ou  seja, após as próximas eleições. “Se vier alguma coisa, é lucro. Em relação ao fiscal, Paulo Guedes (ministro da Economia) atuará mais na defesa do que de centroavante. Será segurar para não se ter um descontrole fiscal, que penaliza todo mundo em forma de juros e inflação”, diz o chefe de Estratégia Macro e Política da XP, Richard Back. 

Segundo ele, o Congresso hoje não tem o “espírito reformista”, principalmente diante do cenário de reeleição próxima, covid e empobrecimento da população. Para Back, houve descoordenação na gestão da pandemia, o que, em sua opinião, explica o ritmo lento na imunização da população. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista.

O que representa essa movimentação do setor privado em torno do processo de vacinação?

O ritmo de vacinação no Brasil está ainda incerto. O SUS tem capacidade de vacinação e essa movimentação do setor privado é no sentido de acelerar a compra da vacina. Primeiro, para acabar com a tragédia humana e, depois, para colocar o País no trilho de novo. 

Como o sr. avalia a gestão do governo na pandemia?

Algum nível de gestão tem. O governo comprou recentemente a vacina da Pfizer, da Janssen... Acho que o que falta não é gestão, mas uma coordenação maior, uma coordenação nacional.

O governo Bolsonaro está mais enfraquecido por conta da pandemia?

No meio político, se o presidente não tivesse feito o pronunciamento que fez (na semana passada em rede nacional defendendo a vacinação), poderia ser o início de uma crise política. O pronunciamento foi uma demanda do legislativo. A política pediu para distensionar o ambiente do meio político e conseguiu, com isso, salvar a relação. Foi um gesto necessário.

Como o sr. prevê a situação econômica nos próximos meses?

Com esse número de mortes, a população precisa se cuidar para achatar essa curva, e as pessoas precisam parar de se colocar em risco. Os setores econômicos estão indo para Brasília pedir auxílio e está havendo uma esforço para a reedição do BEm ( Benefício Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda ), o auxílio emergencial está aprovado. Há setores da economia que dependem do trabalhador no local e não tem muito por onde ir. 

E as reformas, como ficam nesse cenário?

Não tem ambiente para reformas. Há um imaginário de que há várias reformas no Congresso, mas não há.  Tem a reforma administrativa e a Câmara agora parou para cuidar de questões relacionadas à pandemia. A agenda micro segue andando, como o tema de ferrovias e a capitalização da Eletrobrás. Ainda está desorganizado, mas a Eletrobrás tem um prazo, se não andar é porque o Congresso não quer capitalizar. Mas não existe uma fila, uma ordem, o que é algo que a gente sente falta, e com isso se perde tempo. O Congresso de agora não está com espírito reformista. O cenário agora tem reeleição, coronavírus, empobrecimento das pessoas, inflação dando sinais perigosos. Esse assunto está mais para 2023 do que para 2021.

Se não haverá reformas, qual deve ser o ponto de atenção do mercado?

Se vier alguma coisa, é lucro. Em relação ao fiscal, Paulo Guedes (ministro da Economia) vai atuar mais na defesa do que como um centroavante. Será trabalhar para não se ter um descontrole fiscal que penaliza todo mundo em forma de juros e inflação. A pandemia marcou o calendário do ano passado e está marcando o deste ano também.

Como o sr. vê o efeito da crise criada com a aprovação pelo Congresso de um Orçamento com emendas parlamentares infladas e cortes de despesas obrigatórias?

Há algumas visões. A primeira é a contínua falta de articulação do governo. Mostra esse descompasso que tem o governo, essa confusão interna. A base do governo no Congresso aprovou o Orçamento com bastante voto, sem que o governo tivesse se insurgido. Se insurgiu depois que entendeu a proposta. Está longe do ideal a forma como o governo de movimenta politicamente. A segunda é a falência do Orçamento público, o Orçamento estrangulado, uma situação fiscal muito difícil. As reformas são uma demanda. É muito difícil que algum candidato ano que vem não diga que vai fazer alguma reforma. Está demonstrado que tem dinheiro para despesas obrigatórias e para conseguir fazer investimento você começa a ter de ser criativo e a ir contra regras estabelecidas, como o teto de gastos.

O Congresso começa a ter de inventar normas criativas, como essa que não deve ficar de pé. A consequência prática é que o Orçamento vai continuar a ser discutido, o TCU (Tribunal de Contas da União) deve se envolver, vai ter uma grande discussão que não vai ser fácil, porque o governo vai ter de mandar de novo projetos de lei para o Congresso para o Congresso cortar as emendas dos próprios parlamentares. E isso, por definição, é muito difícil. Em um governo mal articulado politicamente é mais difícil ainda, e a gente prolonga o assunto Orçamento ao longo do tempo e causa uma instabilidade na relação entre governo e Congresso. Está se perdendo tempo demais. A gente sabe que o presidente Bolsonaro tem muito receio desse tipo de debate (sobre pedalada fiscal) e quando o comparam com a Dilma.

Então, ele deve atuar, e vamos ver tempo sendo perdido, Congresso e governo se estranhando eventualmente, de uma proposta que poderia ter sido evitada, se o governo tivesse atuado no momento certo.

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