Ricupero prevê cenário pessimista da economia com guerra

O secretário geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), embaixador Rubens Ricupero, previu hoje que uma eventual guerra entre Estados Unidos e Iraque provocará disparada dos preços do petróleo no mercado internacional e queda significativa na disponibilidade de recursos financeiros para os países emergentes. ?Qualquer que seja o desfecho desse conflito no Golfo Pérsico, será negativo para economia mundial?, disse ele à Agência Estado. Segundo o embaixador, a chance de os EUA recuarem de sua decisão de invadir o Iraque é de uma em 100 mil.Ricupero disse acreditar que, quanto maior for a duração do conflito, mais esses dois efeitos devem se acentuar. Porém, segundo ele, ninguém pode prever como a guerra vai acabar e quanto ela vai durar. ?Se for curta, certamente os efeitos serão temporários.? Ontem (quarta-feira) o barril de petróleo para entrega em abril chegou a se aproximar dos US$ 40,00, o patamar mais alto desde 1990. Nesta quinta-feira, o Brent para abril estava sendo negociado a US$ 37,72, com alta de 1,97% em relação ao fechamento de quarta-feira.Já o fluxo de capitais no mundo, que despencou de US$ 1,49 trilhão, em 2000, para US$ 735 bilhões em 2001, deve minguar ainda mais em 2003. Nunca antes, pelo menos nos últimos 30 anos, os investimentos estrangeiros diretos (IED, sigla em inglês) haviam caído tão significativamente como em 2001, de acordo com os últimos dados oficiais da Unctad. ?Trata-se da maior queda em 30 anos e o primeiro tão significativamente no último decênio?, disse o embaixador.No Brasil, o IED caiu de US$ 32,8 bilhões em 2000 para US$ 28,6 bilhões e, nos países emergentes, de US$ 238 bilhões para US$ 204 bilhões no mesmo período. De acordo com as estimativas de Ricupero, o fluxo de capitais no mundo em 2002 (ainda não foram compilados os resultados do ano passado) poderá ter encolhido pelo menos 20% e, este ano, deverá cair ainda mais.PoderO secretário geral da Unctad lembrou que do ponto de vista militar os EUA não terão problema algum para vencer a guerra, até porque o poderio bélico norte-americano é incomparável, ainda mais contra um país de apenas 24 milhões de pessoas e com embargo econômico e sanções impostas desde a Guerra do Golfo, em 1991. ?Surpresa do ponto de vista militar, não haverá. Resta saber como será o futuro do mundo, que dependerá do desfecho desse conflito.Há quem acredite numa desestabilização gigantesca no Oriente Médio?, afirmou.No entanto, Ricupero não acredita numa possível revolta do mundo árabe. ?Não acredito nisso já que grande parte desses países tem regimes autoritários com enormes interesses em suas relações com as potências dominantes?, disse. ?O que pode ocorrer, mas a longo prazo, é uma revolta de parte da população dos países árabes contra seus governantes. Mas isso dificilmente sucederá no curto prazo.?Por enquanto, está claro apenas que a guerra deverá desencadear uma grave crise humanitária. Estudos realizados pelas Nações Unidas, Organização Mundial da Saúde (OMS) e organizações não governamentais (ONGs) indicam que pelo menos 500 mil civis e soldados poderiam morrer direta ou indiretamente com a guerra. Mais de 2 milhões de crianças e outro milhão de mulheres grávidas poderiam ficar à beira de desnutrição, de acordo com a ONU, além de sofrer a falta de medicamentos, água e alimentos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.