Rigor até onde?

Tomaram corpo as dúvidas de que o resultado dos testes de estresse (veja o Entenda) a que se submeteram 91 dos mais importantes bancos da União Europeia e ontem divulgado tenha a mesma aceitação e produza o alívio esperado, como aconteceu com o realizado no ano passado nos Estados Unidos.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

Sobraram desconfianças sobre se os testes foram suficientemente rigorosos a ponto de afastar o risco de falência de bancos que mantém o mercado em permanente tensão. Apenas sete bancos não passaram na prova de fogo e terão de providenciar uma injeção de capital de ? 3,5 bilhões (US$ 4,5 bilhões), o que não é muito. E, de qualquer maneira, são as autoridades europeias que estão passando atestado de boa saúde dos bancos. Isso não deixa de empurrar para os governos a responsabilidade de resgatar instituições financeiras se alguma coisa der errado.

No início do seu governo, Barack Obama conseguiu reverter uma crise de confiança em relação aos bancos sediados nos Estados Unidos. E é esse efeito que as autoridades da União Europeia estão agora procurando. O pressuposto é o de que, uma vez reduzidas as pressões sobre os bancos, ficaria mais fácil atacar os demais problemas da economia europeia.

Nas últimas semanas pipocaram na imprensa internacional resmungos de que esses testes não teriam sido aplicados com o devido rigor. Não teriam encarado com seriedade, como ficou dito, a possibilidade de calote nos títulos de dívidas soberanas que lotam hoje a carteira dos bancos.

Além disso, foram levantadas suspeitas de que levaram alguma dose de acerto prévio entre compadres, na medida em que foram negociados com os banqueiros. Esse último tipo de objeção circulara também por ocasião da divulgação do teste de estresse realizado nos Estados Unidos e, mesmo assim, para a recuperação da confiança, que foi o efeito desejado, o teste funcionou. No entanto, os bancos americanos não estavam fortemente expostos a dívidas soberanas de países europeus.

As autoridades europeias não foram realistas o suficiente para encarar a hipótese de calote (default) de tesouros nacionais aparentemente porque, imaginaram elas, admitir esse risco seria brincar com novo incêndio; seria abalar ainda mais os fundamentos do euro. No entanto, entre as razões que levaram à aplicação dos testes está o aumento das apostas de que alguns países europeus, especialmente a Grécia, não terão outra saída senão recorrer à renegociação da dívida, como fez a Argentina em 2001, e que obrigou os credores a engolir cortes (haircuts) superiores a 60%.

Nos Estados Unidos, dúvidas parecidas não prevaleceram. É que os mercados também procuram desesperadamente acreditar em alguma coisa, a ponto de admitir até mesmo certo nível de enganação. Se o caso europeu passou dos limites se verá nas próximas semanas.

De todo modo, está claro que a solidez patrimonial dos bancos não é o problema principal. O problema principal é a crítica situação financeira e fiscal de um punhado de países da União Europeia que não conseguem reequilibrar suas contas públicas e que permanecem fortemente dependentes da disposição dos bancos de continuar a rolagem da dívida. A despeito de todos os esforços para reverter esse quadro, ainda não se sabe como os excessivamente endividados sairão dessa.

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