Rio Tinto supera a Vale em reajuste

Mineradora australiana fechou um aumento de 85% para o minério de ferro, enquanto a Vale conseguiu até 71%

Daniele Carvalho, O Estadao de S.Paulo

24 de junho de 2008 | 00h00

A mineradora anglo-australiana Rio Tinto quebrou ontem uma tradição nas negociações de preço do minério de ferro ao fechar com a siderúrgica chinesa Baosteel um aumento de 85% para o produto. Essa foi a primeira vez que o minério de ferro recebeu mais de uma revisão de preço em um único ano. Até então, o reajuste era fechado por uma mineradora líder - posição que nos últimos anos tem sido ocupada pela Vale - e era seguido pelas demais empresas mundiais do setor. O acordo fechado pela Vale este ano previa reajustes de até 71%.As negociações da Rio Tinto com as grandes siderúrgicas chinesas se estenderam para além do mês de abril, prazo tradicional para o fechamento dos acordos. A mineradora queria um prêmio mais alto por seus produtos por causa da proximidade entre os depósitos de minério australianos e sua base de clientes na Ásia, o que reduz o custo do frete - que, nesse caso, é pago pelas siderúrgicas que compram o produto. As produtoras chinesas relutavam em pagar esse prêmio, mas acabaram cedendo para não terem de comprar o minério no mercado à vista (spot), negociado por um preço bem mais alto.O mercado ainda se mostra dividido em relação às conseqüências que a mudança nas negociações do produto poderá trazer. Na avaliação do especialista em mineração da SLW Corretora, Pedro Galdi, a iniciativa das produtoras australianas de realizar tratativas independentes foi pontual e pode não perdurar pelos próximos anos."Este ano, por conta do forte aquecimento da demanda, as australianas conseguiram um prêmio maior para o seu minério, uma vez que o frete para a China é bem mais barato", disse. "Mas não acredito que esse movimento vá se repetir sempre. A Vale, por ser a maior em minério de ferro, deve continuar liderando a formação de preços."Já a área de mineração do Banif Securities faz análise diferente. "As negociações ficaram menos engessadas. É difícil prever o que vai ocorrer no ano que vem. A Vale poderá se manter como formadora de preço, mas não está livre de perder a liderança. Se isso ocorrer, mais coisas podem mudar: há tempos as australianas querem criar um índice, a exemplo do que se usa no mercado de carvão, como base para os reajustes de preço. Hoje, a referência acaba sendo o mercado spot indiano. O sucesso na transação paralela com as siderúrgicas chinesas é um indicativo de força", diz um analista do banco, que preferiu não ser identificado.Ainda de acordo com a avaliação do Banif, o poder de barganha das australianas pode se intensificar ainda mais caso a BHP Billiton concretize sua tentativa de comprar a concorrente Rio Tinto, o que tiraria a Vale do topo das maiores mineradoras de ferro do planeta. Outro fato destacado pelo Banif é a diferença entre o porcentual obtido pela Rio Tinto, de 85%, e pela Vale, de 71%. "Fica uma sensação de que a Vale poderia ter feito uma negociação mais arrojada no reajuste de preço do minério. Mas na ocasião, em fevereiro, a Vale negociava a compra da Xstrata. Isso pode ter levado a mineradora brasileira a apressar as negociações do reajuste", acrescenta o analistaCOMPETITIVIDADEOutro ponto destacado por Pedro Galdi é o ganho de competitividade das siderúrgicas brasileiras, que pagarão menos pela matéria-prima. Apesar do reajuste ser igual (71% para o minério de Carajás, mais fino, e 65% para o produto das outras minas da empresa), as siderúrgicas brasileiras têm custo muito menor com o frete, o que significaria uma vantagem. Esse benefício, no entanto, é negado pelo vice-presidente executivo do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), Marco Polo de Mello Lopes. Segundo ele, as brasileiras também têm de desembolsar o custo do transporte das minas até as unidades produtoras de aço. O fato de um novo grupo dividir a formação de preços da matéria-prima também não afetaria o mercado local."Estamos em um mercado global e não há grande vantagem neste jogo para ninguém. Não podemos nos esquecer que também pagamos transporte das minas até as siderúrgicas. Além disso, somos reféns de um preço que é negociado no exterior, pois Vale, BHP Billiton e Rio Tinto, juntas, detêm 80% do mercado mundial de minério de ferro", lembra o executivo.

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