Natacha Pisarenko/AP
Natacha Pisarenko/AP

Risco de crise argentina contagiar Brasil é 'extremamente baixo', diz Bradesco

Para o banco, os dois países têm diferenças econômicas importantes, como situação das contas externas, investimento externo direto, reservas internacionais e indexação da dívida ao dólar

Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2018 | 18h38

A crise argentina pode ter impactos para a economia brasileira, mas com "efeitos e dimensões bastante limitados", avaliam os economistas do Bradesco nesta quarta-feira, que ressaltam que os dois países possuem diferenças econômicas importantes. "O risco de um contágio financeiro para o Brasil nos parece extremamente baixo", ressalta relatório assinado pelos analistas Constantin Jancsó e Andrea Bastos Damico.

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Ao contrário da Argentina, o Brasil, ressalta o Bradesco, possui uma situação "muito confortável" nas contas externas, com déficit próximo de zero, além de ter investimento externo direto de US$ 65 bilhões, reservas internacionais de US$ 380 bilhões, cinco vezes superiores à dívida externa do governo (US$ 70 bilhões) e ausência de dívida local indexada ao dólar. No país vizinho, o déficit da conta corrente bate em 5% do PIB, a dívida externa é 70% em dólar e as reservas líquidas estão na casa dos US$ 30 bilhões.

Outra diferença importante é a inflação, que no Brasil está abaixo da meta do Banco Central, enquanto na Argentina deve chegar perto de 20% este ano. "Apesar dos desafios fiscais de médio prazo [no Brasil], no curto prazo, as contas públicas não oferecem risco à economia diante da vigência do teto dos gastos, da redução do gasto público, dos subsídios e do crédito direcionado", ressaltam os analistas. "Logo, é muito improvável que os eventos recentes na Argentina possam ter algum impacto duradouro na economia brasileira, a julgar pela diferença de fundamentos entre essas economias."

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Os dois países, porém, são grandes parceiros comerciais. A Argentina é o terceiro destino mais relevante das exportações brasileiras no mundo, atrás apenas de China e EUA, mesmo assim, impacto da crise tende a ser baixo. O Bradesco estima que a elasticidade das exportações brasileiras para Argentina ao PIB daquele país estão entre 3,5% e 4%. Ou seja, para cada queda de crescimento de 1 ponto no PIB argentino, o Brasil poderá ter redução das exportações para país vizinho de aproximadamente 4%, estima o banco. "Para cada redução no crescimento da Argentina de 1 ponto porcentual, o impacto sobre as exportações brasileiras poderia ser de US$ 700 milhões e o impacto sobre o PIB seria de 0,04%", ressalta o relatório.

"Ambos os efeitos são praticamente desprezíveis diante do saldo comercial de US$ 70 bilhões do país projetado para 2018 e da expectativa de crescimento da economia brasileira em 2,5%", conclui o relatório. Assim, a crise argentina pode ter impacto na balança comercial e no crescimento brasileiro, mas com "magnitude bastante reduzida".

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Estabilização. No relatório, os economistas do banco comentam a série de medidas que a Casa Rosada vem tomando nos últimos dias para tentar acalmar a crise, que inclui a elevação dos juros de 27% para 40%, venda de dólares no mercado local e busca de um crédito no Fundo Monetário Internacional (FMI). "Acreditamos que o cenário mais provável é que o aprofundamento da agenda de estabilização macroeconômica, agora com o apoio do FMI, tenha sucesso em estabilizar os preços dos ativos, apesar de reconhecermos as dificuldades associadas ao cenário global de menor liquidez e maior aversão ao risco", ressalta o Bradesco.

Para o médio prazo, o banco brasileiro vê "expressivo potencial" de melhora no desempenho econômico da Argentina. O banco projeta crescimento do PIB de 3% em 2018 e de 3,2% em 2019, mas é provável que essa projeção seja revisada "um pouco para baixo" por conta dos efeitos da volatilidade das últimas semanas. Outro risco é a inflação também ficar acima do previsto, por conta da desvalorização do peso. A projeção atual do banco é de alta de 18% este ano.

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