Risco de desabastecimento de diesel
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Risco de desabastecimento de diesel

Vários fatores estão contribuindo para agravar as condições do abastecimento local de diesel e o País continua sem plano para enfrentar o risco de escassez do combustível

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2022 | 20h08

Em apenas duas semanas, a crise energética global se agravou e, com ela, agravaram-se as condições do abastecimento de diesel e gasolina no Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro vem lidando mal com o problema e, quanto mais ele se confunde, mais dificuldades corroem suas pretensões eleitorais.

A decisão da União Europeia (UE) de cortar em dois terços seus suprimentos de petróleo e gás provenientes da Rússia obrigou os países do bloco a se abastecerem em outras fontes.

Outro fator foi o afrouxamento das medidas de distanciamento social (lockdown) pela China como reação ao novo surto de covid-19. Espera-se agora aumento da atividade econômica da China e aumento do consumo de energia.

A aproximação do verão no Hemisfério Norte aumentará a demanda de combustível para viagens e para refrigeração.

Os dois fatores anteriores levaram governos, empresas e grandes distribuidores de combustíveis a reforçar seus estoques de segurança, consequência semelhante ao de um anúncio de falta de água: todos correm para encher pias, baldes e banheira.

O resultado imediato é a disparada nos preços e, também, a falta física do produto.

Quando avisou as autoridades de que é alto o risco de desabastecimento interno de diesel, a Petrobras não está pressionando para aumentar os preços; está avisando que é preciso preparar um plano para enfrentar o risco de escassez iminente. O Brasil é autossuficiente em petróleo, mas não tem capacidade de refino suficiente para atender todo o consumo interno de óleo diesel e de gasolina. A questão principal não é nem o preço a pagar pelas importações, mas o de conseguir fornecimento.

 

As ameaças de intervenção nos preços internos do diesel e da gasolina produziram retração das importadoras de combustíveis, porque não podem correr o risco de não repassar os preços das importações para o consumidor final. O risco de falta de produto aumentou com as ameaças do governo.

Uma das propostas em exame é adição de mais biodiesel na mistura, de 10% para 14%. Mas, atenção, o biodiesel é soja, cujo preço também respeita a paridade internacional. E é mais alto do que o do diesel.

A ideia do presidente Bolsonaro é exigir que a Petrobras use seu poder de barganha para importar mais diesel e gasolina de onde houver pelo preço de mercado e repassar ao consumo interno pelo preço congelado. Seria uma operação que, além de alijar outros importadores do mercado, derrubaria os lucros da Petrobras, que Bolsonaro considera “um estupro”.

Bolsonaro pouco está interessado na sanidade das finanças da Petrobras. Não esconde que seu objetivo é garantir o voto do eleitor que vem fugindo em consequência da inflação e do forte aumento dos combustíveis. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.