Risco de não entregar

Na reunião que começou ontem e que hoje definirá o ajuste dos juros básicos (Selic), o Copom provavelmente tentará reiterar a promessa, várias vezes feita, de que a inflação convergirá para a meta (4,5% ao ano) em 2012. Mas é pouco provável que consiga cumpri-la.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2011 | 00h00

A inflação voltou a subir. Muito provavelmente fechará este ano bem perto do teto tolerado, ou seja, dos 6,5%. No período de 12 meses, os preços dos serviços continuam avançando mais rapidamente do que a alta do custo de vida, entre 9% e 10%. E a expansão do crédito se mantém renitentemente acima de 20% nesse mesmo intervalo.

Apesar do ajuste feito previamente no Orçamento da União deste ano, de maneira a garantir um superávit primário de 3,10% do PIB, as despesas correntes do governo federal vêm aumentando em torno de 10% ao ano, ajudando a empurrar a renda e o consumo.

É o fator que, em boa parte, provoca o aquecimento do mercado de trabalho acima do avanço da produtividade, conforme o Banco Central, presidido por Alexandre Tombini, admitiu no último Relatório de Inflação. E, como ontem divulgou o IBGE, em junho, o desemprego caiu de 6,4% para 6,2% da força de trabalho, ainda abaixo da faixa que poderia ser encarada como neutra para a geração de inflação. Esses números foram reforçados ontem pelos do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) que, no mês passado, registrou a criação de mais 215,4 mil empregos com carteira assinada, o segundo melhor junho da história.

Afora isso, janeiro de 2012 começará com um reajuste já contratado para o salário mínimo de 14%, muito acima da inflação e do índice de produtividade conjugados - fator que vem puxando os preços desde já.

O Banco Central não pode mais repetir indefinidamente que os preços dos combustíveis permanecerão inalterados. A escassez de etanol, em plena entressafra do Centro-Sul, será forte o suficiente para puxar para cima tanto os preços do álcool hidratado como os da mistura de álcool anidro à gasolina.

Levando em conta a força desses e de outros elementos, o Banco Central entendeu que tinha de desistir de entregar a inflação na meta em 2011. Assegurou que isso acontecerá em 2012. No entanto, está cada vez mais difícil cumprir a nova promessa.

Até há algumas semanas, o Banco Central ainda justificava sua opção pela maciez e pelo gradualismo com o argumento de que seria preciso esperar pelos efeitos sobre os preços produzidos pelas providências macroprudenciais (controle do crédito) tomadas no início do ano. Mas esse impacto, se houve algum, foi irrelevante. Se o Banco Central acreditasse na força dessas medidas, as teria reforçado. Mas desistiu. E talvez tenha contribuído, para essa desistência, a percepção de que os bancos pequenos e médios são menos resistentes a ajustes desse tipo.

O Banco Central não é a única instituição que está lidando com a inflação de maneira complacente. Todo o governo está se comportando da mesma forma. E essa frouxidão provavelmente cobrará seu preço já em 2012, ano de escolha dos novos prefeitos, quando, simultaneamente, o eleitor será chamado a fazer a primeira avaliação do governo da presidente Dilma Rousseff.

CONFIRA

Obra da Gangue

Mais tarde, em pronunciamento pela TV, o presidente Barack Obama elogiou o agora chamado "Plano da Gangue dos Seis", que apontou uma saída para o que até agora era considerado gravíssimo impasse político. A probabilidade de que até dia 2 esteja tudo encaminhado parece alta.

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