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Risco de perder usinas e crise fazem valor da Cemig voltar aos níveis de 2005

Após STJ decidir que empresa não tem direito à renovação do contrato de concessão da hidrelétrica Jaguara, o que pode acontecer com outras duas usinas, ação da companhia despencou 40% no ano

André Magnabosco, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 22h29

O valor de mercado da estatal mineira Cemig atingiu nesta semana o mais baixo patamar desde 2005. A companhia, que valia mais de R$ 30 bilhões três anos atrás, hoje está avaliada em menos de R$ 10 bilhões, pressionada pela possibilidade de perder o controle de algumas de suas principais usinas hidrelétricas. O viés político que passou a contaminar a trajetória das ações desde antes da eleição do governador mineiro Fernando Pimentel (PT) e a ainda delicada situação do setor elétrico nacional também contribuíram para a avaliação menos favorável da companhia.

Na terça-feira, o valor de mercado da Cemig atingiu a marca de R$ 9,311 bilhões, o menor patamar desde o dia 29 de março de 2005, quando a empresa foi avaliada em R$ 8,956 bilhões. Apenas neste ano, as ações já se desvalorizaram mais de 40%.

A trajetória gradativa de desvalorização das ações se acentuou a partir do final do primeiro semestre, após uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinar que a Cemig não teria direito à renovação do contrato de concessão da usina hidrelétrica Jaguara. Diante da decisão, o mercado financeiro passou a precificar não apenas o fim da concessão dessa usina, mas também o das usinas de São Simão e Miranda.

Sem as três unidades geradoras, a estatal mineira deve amargar queda de rentabilidade e, consequentemente, reduzir a distribuição de dividendos. Para evitar esse cenário adverso, o presidente da estatal Mauro Borges, indicado por Pimentel, negocia com o governo federal com o objetivo de manter o controle sobre as três usinas.

Reembolso. Caso não obtenha êxito nessas negociações, a Cemig corre ainda outro risco. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) poderia determinar que a estatal mineira devolvesse à União montante equivalente à receita obtida com a venda da energia gerada pelas usinas de Jaguara e São Simão desde o fim das concessões. Esse valor, segundo a Guide Investimentos, pode somar entre R$ 2,5 bilhões e R$ 4,5 bilhões. O Credit Suisse já prevê um valor maior, de R$ 4,7 bilhões.

“A perda (das concessões) já está parcialmente precificada. A questão que resta é se ela precisará fazer o reembolso ou não para a União. Não dá para saber qual será o futuro da Cemig sem saber como serão decididas as questões pendentes”, pontua o analista da Guide Investimentos, Rafael Ohmachi.

Mas a questão política associada ao futuro das concessões vencidas não é o único problema a ser superado pela Cemig. O volume de água dos reservatórios obrigou o Operador Nacional do Sistema (ONS) elétrico a reduzir a geração das hidrelétricas, o que ocasionou um déficit de geração hídrica (GSF) maior e, consequentemente, maiores despesas por parte das geradoras com a compra de energia.

A área de distribuição da Cemig, por sua vez, foi afetada pela redução do consumo. No segundo trimestre deste ano, a venda de energia para consumidores finais alcançou 11.305 GWh, queda de 7,58% em relação ao mesmo período de 2014.

Ações. Nos últimos dias, as ações da Cemig ainda têm sofrido pressão adicional em função de duas notícias relacionadas ao mercado acionário. A primeira foi a aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) de um ato de concentração entre BNDES Participações (BNDESPar), Cemig e AGC Energia, subsidiária da Andrade Gutierrez com participação societária na Cemig.

A decisão autoriza o BNDESPar a adquirir, por meio da permuta de debêntures de emissão da AGC, ações da Cemig detidas pela AGC Energia. Com isso, o BNDESPar passará a ser titular de 12,9% das ações ordinárias e 3,1% dos papéis preferenciais e poderá provocar uma pressão vendedora nos papéis da estatal mineira.

Na quinta-feira, foi a vez de a Cemig informar que o Redentor Fundo de Investimentos em Participações (FIP Redentor) exercerá a opção de venda das ações que possui na Parati, que por sua vez tem participação no capital da Light. Diante dessa decisão, a Cemig será obrigada a comprar as ações do FIP Redentor ou encontrar um parceiro interessado nessa participação. Como a situação para a venda dessas ações é menos favorável neste momento, a Cemig já provisionou no balanço do segundo trimestre uma perda potencial de R$ 280 milhões com a operação.

Desde o início do ano o indicador que mede o desempenho das ações do setor elétrico caiu quase 20%, pouco abaixo da variação do Ibovespa. Para Ohmachi, da Guide, este é um sinal de que o segmento como um todo apresenta um risco considerado elevado neste momento. “E os investidores talvez estejam mais avessos a tomar esse risco”, pontua. 

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