Daniel Slim/AFP
Daniel Slim/AFP

Risco fiscal expõe países como o Brasil à retirada de estímulos nos EUA

Fragilidade das contas públicas e desaceleração chinesa podem afastar ainda mais os investidores dos países emergentes, em meio à redução dos programas de estímulo monetário do Fed, o banco central americano

Bárbara Nascimento, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 10h00

O anúncio de retirada de estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) traz aos emergentes um "déjà vu" indesejado. Na última vez em que isso ocorreu, em 2013, esse grupo de países passou por turbulências após uma intensa fuga de capital estrangeiro. Especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast apontam que Fed e os emergentes aprenderam a lição e estão, hoje, em uma posição menos dramática, mas existem riscos que podem complicar a situação, como a fraqueza das contas públicas e a desaceleração da economia chinesa.

O entendimento é de que vários gargalos que levaram à crise naquela época foram resolvidos, mas há uma fragilidade fiscal generalizada que, somada a um ambiente de crescimento fraco e inflação alta, pode causar problemas para países que, como o Brasil, comprometeram as contas públicas para aplacar os estragos da pandemia de covid-19 à economia. 

Em 2013, os emergentes reuniam uma combinação fatal de reservas baixas e alto endividamento externo. Com a depreciação das moedas emergentes após a fuga de capital, esses países acabaram expostos. A situação foi especialmente complicada para cinco países: Brasil, Índia, Indonésia, Turquia e África do Sul. 

Hoje, a percepção é de que os emergentes estão, no geral, com déficits menores na conta corrente e reservas em moeda estrangeira mais bem estruturadas.

"A posição macro dos países identificados naquela época como frágeis hoje é um pouco mais forte, apesar de a relação dívida/PIB na maior parte estar mais alta", avalia o estrategista de mercados emergentes do Citi, Alvaro Mollica, explicando que parte disso tem ligação com a queda no PIB e a retração de importações durante a crise gerada pela pandemia do coronavírus.

Além disso, Mollica aponta que o efeito surpresa é menor dessa vez. Para ele, o próprio Fed aprendeu com o impacto anterior e trabalhou para que o processo seja mais gradual e previsível agora.

"O Fed aprendeu com o impacto que teve em 2013. E até mesmo para mercados americanos, não apenas emergentes. Ele fez todo esse guidance (direcionamento) de mercado para fazer isso aos poucos sem causar uma mudança abrupta", disse.

Mesmo assim, uma combinação de crescimento fraco, piora fiscal e aumento de inflação e dívida, boa parte disso em resposta aos efeitos da pandemia de covid-19, tem potencial de complicar a vida de alguns emergentes.

O cenário ainda é afetado pela insegurança extra gerada pela desaceleração econômica chinesa, com quem boa parte desses países tem intensa relação comercial. Para o banco japonês Nomura, há pelo menos 10 países que estão com o sinal de alerta aceso: Brasil, Colômbia, Chile, Peru, Hungria, Romênia, Turquia, África do Sul, Indonésia e Filipinas.

"É verdade que, comparado a 2013, muitos países (emergentes) têm déficits menores de conta corrente, maiores reservas estrangeiras e atraíram apenas modestas entradas de capital cumulativo nos últimos anos, mas os emergentes desenvolveram novas fontes de vulnerabilidade", aponta relatório do banco japonês.

Para o Nomura, apesar de a situação da conta corrente estar hoje melhor do que no passado, "os déficits fiscais extraordinariamente grandes dos emergentes provavelmente levarão para um déficit em conta corrente considerável", o que deve testar a confiança do investidor no nível de reservas desses países.

Mollica, do Citi, aponta que há uma tendência de parte dos ministérios da Fazenda emergentes tentar diminuir os déficits fiscais inflados durante a pandemia pelas medidas fiscais de estímulo à atividade e de auxílio emergencial à população. O grande risco fiscal, aponta, é que, com as recentes projeções de desaceleração da economia no ano que vem, os governos caiam na tentação de gastar mais.

"Se houver um movimento de muito estresse e mudança nas condições financeiras globais significativas, a literatura econômica mostra que isso gera um impacto no PIB. O que seria complicado, porque os governos gostariam de provavelmente diminuir esse impacto com mais gasto, com medidas para estimular crescimento e fazer isso de uma posição mais precária, seria pior", alerta.

Para o Nomura, o grau de piora das condições fiscais e de atividade, associados a um ambiente de retirada de estímulos americana e à desaceleração chinesa, deve testar em alguma medida a disposição do investidor de permanecer em mercados emergentes.

Uma das vantagens apontadas pelos especialistas é de que grande parte de uma possível fuga de capital estrangeiro já ocorreu no início da pandemia, em março e abril do ano passado, quando as incertezas sobre a atividade global retiraram o apetite por risco. 

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