Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

‘Risco para o Brasil é que a recessão se estenda’

Para economista, governo tem pouca margem de manobra para adotar uma política contracíclica

Entrevista com

Alberto Ades, chefe de economia e estratégia para mercados emergentes do Bank of America Merrill Lynch

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2015 | 05h00

As projeções do Bank of America Merrill Lynch para a economia brasileira são sombrias. O banco estima uma recessão de 3,3% este ano. Para 2016, a queda estimada é de 3,5%. Eu diria que o risco para o Brasil é que a recessão aumente de duração: em vez de se estender no ano que vem e parte de 2017, pode seguir e gerar uma situação em que o Brasil eventualmente precise de um programa apoiado por organismos internacionais para construir credibilidade”, afirma Alberto Ades, chefe de economia e estratégia para mercados emergentes do banco. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

Como avalia a economia brasileira em um quadro que combina crise econômica e política?

Temos uma visão relativamente negativa se alguém nos compara com o consenso dos analistas. Na nossa projeção, a economia deve se contrair 3,5% em 2016. O Brasil tem pouca margem de manobra para fazer com que a economia se recupere. A equipe econômica não pode usar políticas fiscal e monetária contracíclicas. Sem resolução política, que permita a implementação de reformas, a única válvula de escape é o câmbio e o setor externo.

E isso ocorria com a depreciação do real?

Com a depreciação da moeda é possível ganhar competitividade, melhorar as exportações e reduzir as importações. O problema é que a economia brasileira é fechada e o setor externo é pequeno. Portanto, se o real se depreciar significativamente não será suficiente para permitir o crescimento. Uma alta de 5%, 6% e 7% nas exportações soma apenas 0,5, 0,6 ponto no crescimento do País. Quando as importações se contraem, ocorre algo similar. Então, o setor externo poderia contribuir com 1 ponto, 1,5 ponto de crescimento.

Quais os riscos para o Brasil de enfrentar dois anos seguidos de forte contração?

O risco se dá para o setor corporativo. Também pode ocorrer um aumento do desemprego e o setor bancário deve ter problemas pelo aumento dos inadimplentes. Tudo isso cria uma pressão sobre o governo para injetar mais recursos no setor corporativo ou no bancário, o que aumenta ainda mais a dívida do governo e leva a novos rebaixamentos. O risco para o Brasil é que a recessão aumente de duração: em vez de se estender no ano que vem e em parte de 2017, pode seguir e gerar uma situação em que o Brasil eventualmente precise de um programa apoiado por organismos internacionais para construir credibilidade. Mas tudo isso é difícil de se prever sem uma resolução da crise política.

É possível que o setor externo ajude o Brasil mesmo com os preços baixos das commodities?

A realidade é que ajudará pouco. Se o Brasil fosse a Coreia, diante da depreciação como a que teve o real, as exportações estariam crescendo a 10%, e as importações estariam caindo 5%. Mas, na Coreia, as exportações representam 50% do PIB. E um crescimento de 10% contribui com cinco pontos de crescimento. Isso mais do que compensa qualquer debilidade que possa ter a demanda doméstica. Mas a economia brasileira é tão fechada que a mudança no setor externo precisa ser muito significativa. E, para que seja muito significativa, precisa de uma depreciação maior do câmbio e um crescimento da economia global, o que não se vê por enquanto. A realidade é que a situação é muito complicada, por isso seguimos vendo pressão sobre o câmbio e projetamos que o real encerre 2016 em R$ 4,50.

Ou seja, a inflação não vai cair?

Vemos caindo por causa do efeito-base. Neste ano, a inflação deve encerrar em 10% e no ano que vem em 6,4%. A inflação cai, mas com a depreciação do real acabamos subindo um pouco a projeção.

E a economia da China?

A economia chinesa está experimentando duas tendências que são muito importantes. A China vai crescer menos do que no ano passado. Este ano deve avançar 6,9%. Vemos uma desaceleração gradual. Ao mesmo tempo, a economia chinesa está experimentando um rebalanceamento. No passado, o crescimento esteve liderado pelos setores da indústria e da construção, mas no futuro vemos o crescimento puxado pelo setor de serviços. Para a América Latina, é quase como se a economia da China estivesse em recessão. Nós não nos beneficiamos por um aumento em serviços. Quem são os principais exportadoras de serviços para China? São Estados Unidos, União Europeia, Japão, Hong Kong. Ou seja, os países desenvolvidos.

Com essas dificuldades, é possível que o Brasil supere o atual cenário e faça o ajuste fiscal?

Para o ano que vem, projetamos novamente um déficit fiscal primário. Não será tão grande como o deste ano. Vemos ajuste e estabilização da dívida muito complicados nesse contexto. Novamente: sem uma resolução política, só ajustando a parte discricional de gasto público, vai ser muito difícil.

O Fed pode subir os juros na próxima semana. Que impactos haverá no Brasil e em outros emergentes?

Para nós, o Fed (Federal Reserve) sobe os juros em dezembro, depois espera até junho. Provavelmente, na próxima semana vamos ver uma volatilidade no mercado, mas não acreditamos que será o fator definitivo para os próximos meses.

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