Risco verde e crédito verde
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Risco verde e crédito verde

Com a adoção de critérios socioambientais na matriz de risco dos bancos, o crédito está ficando mais restrito para operações e setores sensíveis às mudanças climáticas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2021 | 19h12

A liberação de um crédito bancário está ficando mais complexa. O financiamento de um imóvel ou da compra de um equipamento pode não passar pelo crivo de um banco porque enfrenta problema socioambiental. São exigências novas que mudam a relação do banco com seus clientes.

Ao ter riscos socioambientais como um dos critérios de avaliação, o crédito fica mais difícil para projetos que estejam localizados em áreas sensíveis, de transição de bioma ou com risco de desmatamento e alagamentos, que utilizam tecnologias e insumos de maior impacto ambiental em seu desenvolvimento ou tenham autuações por violações de direitos humanos. Também dificulta empresas de setores que dependem de matérias-primas mais poluentes, como exploração, refino e distribuição de combustíveis fósseis.

São os chamados critérios ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança), que passaram a fazer parte tanto da estratégia de negócios das empresas como de novas exigências que os bancos centrais têm feito para incluir novas regras de gerenciamento e enfrentamento de risco social, ambiental e climático em suas normas.

“Entramos numa década onde os desafios sociais e ambientais são urgentes. A sociedade e o mercado exigem que as empresas se conectem com essa agenda construindo soluções efetivas para esses problemas e o crédito é um dos instrumentos que possibilitarão essas mudanças”, explica Nelmara Arbex, sócia-líder de ESG da consultoria KPGM.

Isso vale não só para empresas que recorrem aos bancos para ajudar a alavancar financeiramente um projeto, como, também, para pessoas físicas.

Embora alguns bancos tenham criado essas áreas a partir do início do século, no Brasil o Banco Central só as regulou em 2014 (Resolução 4.327). Condenações ou denúncias fundamentadas de trabalho escravo ou infantil podem barrar financiamentos de atividades agrícolas ou comerciais a pessoas físicas.

Projetos com embargo de organismos de proteção ambiental, como Ibama e Cetesb, ou empresas com passivos ambientais estão sujeitas a ter sua atividade prejudicada, o que complica a qualidade de um empréstimo e de seu pagamento.

Esses novos cuidados se estendem às garantias apresentadas para o financiamento. Um imóvel pode estar contaminado, o que pode ser suficiente para passá-lo por reavaliação mais meticulosa. Como observa a superintendente de Risco Ambiental do Banco Santander Brasil, Maria Sílvia Chicarino, esta é uma área dos bancos que enfrentará cada vez mais exigências no mundo e no Brasil. O próprio Banco Central já estuda modificações relevantes na resolução 4.327, cujo conteúdo está em consulta pública.

Grandes empresas (como petroleiras, mineradoras e montadoras de veículos) começam a enfrentar mais rigor por parte das áreas de análise de risco dos bancos. O mundo dos negócios começa a despertar para a ameaça do cisne verde, graves crises financeiras produzidas por mudanças climáticas.

Hailton Fortes, diretor de crédito do Banco do Nordeste (BNB), entende que a pandemia acelerou a necessidade de sustentabilidade como estratégia de retomada da economia, o que leva os bancos a incentivar seus clientes a firmar compromissos nessa linha.

Em 2020, cerca de 22% do crédito concedido no Brasil para pessoas jurídicas destinou-se à economia verde, segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban). São recursos direcionados em sua maior parte para atividades ligadas à agricultura de baixo carbono, recuperação de florestas, geração e transmissão de energias a partir de fontes renováveis (eólica, solar e biomassa) e eficiência no uso de recursos naturais.

Financiamentos com essas características vão ganhar mais incentivo no País com a criação do “bureau verde” para o crédito rural. A ferramenta é iniciativa do Banco Central e, a partir de julho, vai centralizar bases de dados de órgãos do governo para que os bancos verifiquem se a área do projeto a ser financiado cumpre requisitos de sustentabilidade e as obrigações legais. O objetivo é aumentar em até 20% os recursos para operações consideradas verdes e impedir o financiamento de quem não cumprem com os requisitos.

Até que ponto a adoção de novas regras para gerenciamento de riscos aumentará o custo do crédito? Amaury Oliva, diretor de Sustentabilidade da Febraban, adverte que é preciso cautela na adoção de novos critérios para que não gere aumento no custo de observância das operações e, consequentemente, encarecimento do crédito. 

“Certos critérios estão subjetivos e necessitam de aperfeiçoamento para que não haja insegurança jurídica que impacte a reputação das instituições financeiras e restrição na oferta de crédito. Além desses custos, há os que provêm de investimentos necessários em tecnologia e contratação de mão de obra especializada com a inclusão de novos requisitos”. 

Maria Sílvia, do Santander, observa que essas novas exigências devem ser vistas de maneira ampla. “Não se pode ver essas exigências apenas pelo lado dos custos. Uma análise de risco pode apresentar novas oportunidades para uma empresa”.

Segundo Karine Bueno, superintendente de Sustentabilidade do Santander, o próprio setor conseguiu evoluir e identificar na agenda oportunidades para trabalhar com seus clientes a inclusão desses indicadores nas operações. No banco, que financiou cerca de R$ 27 bilhões em negócios ESG no último ano, sistemas integrados e satélites ajudam monitorar o risco e o cumprimento dos critérios socioambientais firmados em contrato.

Além disso, ajustes foram feitos em alguns produtos ofertados, como a adequação dos prazos das linhas de financiamento para energia solar, para que o cliente consiga recuperar seu investimento.“Temos que olhar para o ESG sempre por dois ângulos. Como é que se pode gerar oportunidade de negócios para as instituições e como o sistema financeiro aloca capital combinando o melhor dos mundos, que é ter uma economia inclusiva, com baixas emissões e resiliente”, arremata Karine./COM PABLO SANTANA

CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA 

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