Riscos de estagnação e tensões sociais aumentaram na zona do euro, diz FMI

Fundo recomenda mais cortes de juros e medidas ‘não convencionais’ para estimular o crédito

Altamiro Silva Júnior, da Agência Estado,

25 de julho de 2013 | 13h46

NOVA YORK - Os riscos de estagnação econômica, as tensões sociais e políticas e a ameaça de contágio para o resto do mundo cresceram nos países da zona do euro, avalia relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado nesta quinta-feira. Para evitar uma piora, novos estímulos monetários do Banco Central Europeu (BCE) podem ser necessários, incluindo mais cortes de juros e medidas "não convencionais" para estimular o crédito, principalmente para as pequenas e médias empresas.

A zona do euro deve ter em 2013 seu segundo ano de recessão, recuando 0,6%. Para 2014, o FMI alerta que as perspectivas não são nada animadoras e o Produto Interno Bruto (PIB) da região deve crescer apenas 0,9%. No ano seguinte, a expansão prevista é um pouco maior, de 1,3%. Mas todos estes números são bem piores que a já fraca expansão da economia mundial, que este ano deve ficar em 3,1% e 3,8% em 2014 e, de acordo com o Fundo - níveis incapazes de melhorar a situação ruim das taxas recordes de desemprego na zona do euro, sobretudo entre os jovens.

Nesse cenário, os países da zona do euro precisam pensar em uma "nova agenda de crescimento" que reaqueça as economias e crie empregos. Para isto, a prioridade número um é reativar o crédito bancário, atualmente estagnado. Em alguns países, sobretudo da periferia da região, as dívidas de empresas e famílias permanecem elevadas, o que desencoraja ainda mais os bancos a concederem empréstimos e contribui para desaquecer a demanda, uma vez que as decisões de consumo e investimento são postergadas.

Na periferia da região, o crédito permanece caro, sobretudo para a pequena empresa. O FMI sugere que o BCE tome medidas específicas para este segmento. Uma delas seria o banco central comprar diretamente títulos de crédito emitidos por companhias de menor porte. O relatório fala que "medidas imediatas" precisam ser tomadas pelos governos da região dentro deste objetivo de reanimar o crédito, incluindo recapitalização de bancos com problemas, mas que ainda são viáveis, e fechamento ou reestruturação das casas financeiras consideradas inviáveis. Os economistas do Fundo ressaltam que apoiam novos testes de estresse na região para determinar a necessidade de capital de cada banco e ver aqueles que não têm mais chance de sobreviver.

A inflação na zona do euro deve continuar controlada, o que, destacam os economistas do Fundo, abre espaço extra para adoção de mais estímulos monetários. Em 2013, o índice de preços ao consumidor deve ficar em 1,5% e no ano que vem, em 1,4%. Na discussão sobre possíveis novos estímulos monetários, o relatório fala que o espaço para o corte de juros é limitado, mas sugere que as taxas para os depósitos sejam levadas para níveis negativos.

O FMI volta a falar no documento de hoje sobre a necessidade de a zona do euro acelerar a união bancária, de modo a ter um sistema financeiro, hoje muito fragmentado, completamente integrado, com mecanismos únicos de supervisão, regulação e tomada de decisões. O documento argumenta que progressos têm sido feitos, mas que novos esforços precisam vir, inclusive na direção de criar um mecanismo único de garantias de depósitos.

FMI muda tom. O FMI mudou o tom em documento divulgado hoje e fala da necessidade de os países da zona do euro fazerem ajustes fiscais em ritmo escalonado para evitar que o crescimento econômico seja comprometido.

A melhora das contas fiscais, que já foi prioridade absoluta em outras análises do FMI para a zona do euro, agora tem um tratamento menos prioritário. "Os diretores concordam com a necessidade de um ritmo diferenciado, flexível, de ajuste fiscal no médio prazo. Neste sentido, a decisão recente de postergar para alguns países a data de cumprimento de metas de déficits fiscais é bem-vinda", destaca o documento. Uma flexibilidade adicional pode ser necessária em determinados casos, ressalta o documento.

No último final de semana, os ministros do G-20, bloco formado pelos países mais ricos do mundo, decidiu dar prioridade ao crescimento em vez da austeridade fiscal, como havia sido o tom de encontros anteriores.

O FMI avalia que os dirigentes europeus fizeram muitos progressos em pouco tempo para evitar um colapso das economias da região. No entanto, a agenda de reformas permanece incompleta e precisa ser acelerada, sob o risco de comprometer a recuperação das economias da região. Os riscos para uma piora da situação permanecem elevados, destaca o relatório.

Uma piora maior do mercado financeiro, como a vista nas últimas semanas, por conta da expectativa de mudanças na política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) pode afetar a região. A manutenção da turbulência e volatilidade nas bolsas pode "agravar a fragmentação e complicar a condução da política monetária" da região, de acordo com o FMI.

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