Riscos ocultos

FMI e Banco Mundial promovem dois encontros conjuntos anuais, na entrada da primavera e do outono no Hemisfério Norte, um deles em Washington, sede dos dois organismos multilaterais, outro em algum país-membro. A última reunião conjunta, realizada na semana passada em Lima, no Peru, foi marcada por uma novidade muito antiga. 

José Paulo Kupfer, O Estado de S. Paulo

13 de outubro de 2015 | 05h00

Explica-se: depois de anos em que a preocupação geral se concentrou nos efeitos da crise global de 2008 sobre economias maduras, a estabilidade financeira dos países emergentes, tema historicamente recorrente nos debates da situação de momento na economia mundial global, voltou ao centro do palco. O iminente início da normalização da política monetária nos Estados Unidos, mesmo que com elevações a conta-gotas das taxas de juros de referência, deflagrou uma onda de alertas contra os riscos de novas turbulências na economia global.

Não é difícil reproduzir o enredo que leva, neste momento, a novas desconfianças em relação à saúde financeira das economias emergentes. Trata-se de uma trágica história, reprisada de tempos em tempos. Começa, nas economias centrais, com as baixas taxas de juros praticadas, na tentativa de ampliar a liquidez doméstica e estimular consumo e investimento, e termina, nos países emergentes, com fugas de capitais, crises cambiais e o tumulto, inclusive político, dos colapsos econômicos.

Há, ligando os dois atos desse roteiro, um movimento intermediário em que as lições das turbulências do passado nunca são aprendidas por inteiro. Depois das crises da dívida dos anos 80 e 90, os países emergentes adotaram o câmbio flutuante em lugar do fixo, acumularam reservas internacionais e estimularam a substituição de dívidas externas por participações acionárias nos mercados domésticos.

Nada disso, porém, parece ter impedido, nos últimos anos, a alavancagem excessiva do endividamento – de governos e empresas –, estimulada pela atração de capitais pela combinação propícia de juros reais elevados, usados, juntamente com o câmbio valorizado, para conter pressões inflacionárias. A verdade é que a liquidez internacional, apesar da crise da 2008, nunca deixou de aumentar – e que uma grande parte foi reciclada pelos emergentes. Em dez anos, de 2004 a 2014, a dívida externa corporativa de emergentes saltou de US$ 4 trilhões para US$ 18 trilhões ao ano. 

Artigo da pesquisadora Carmen Reinhart, de Harvard, distribuído durante a reunião do FMI/Banco Mundial, chamou particularmente a atenção. A autora, famosa pela publicação em 2013, em conjunto com o ex-economista-chefe do FMI Kenneth Rogoff, de um polêmico estudo sobre a relação entre endividamento e crescimento econômico, levanta a suposição de que as dívidas de emergentes possam estar subestimadas e contenham riscos ocultos tóxicos. 

Reinhart recorda que, na crise mexicana, em 1994-95, descobriu-se depois que havia operações de derivativos em empréstimos não registrados de empresas offshore. Do mesmo modo, na crise asiática de 1997, o Banco Central da Tailândia omitiu do FMI contratos a prazo que encobriram o esgotamento das reservas internacionais do país. Mais recentemente, o mesmo se deu com a Grécia, onde, por diversas manobras, o montante real das dívidas foi sonegado.

Segundo as hipóteses de Reinhart, não se pode esperar que seja diferente agora e, se há dívidas ocultas, é preciso saber onde o dinheiro se esconde. Para ela, boas suspeitas recaem sobre financiamentos chineses de projetos de infraestrutura e produção de commodities em emergentes. Levantamentos detalhados, por exemplo, localizaram empréstimos chineses para a Venezuela, de 2009 a 2014, em montantes anuais equivalente a quase 20% do PIB venezuelano, parte deles sem registros oficiais.

Se essas suspeitas se confirmarem – e nada tenha sido feito para evitá-las a tempo –, a reversão dos fluxos financeiros dos emergentes terá consequências ainda mais penosas e elevadas para a economia global do que o já precificado pelo mercado. 


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