Ritmo da recuperação econômica do País ainda divide analistas

As medidas colocadas em curso pela nova equipe econômica, que está prestes a completar um mês no comando, ainda não foram capazes de unificar a opinião de economistas em torno da recuperação da economia brasileira. Há quem veja os primeiros sinais dados pelo governo do presidente em exercício Michel Temer com otimismo e há quem ainda não enxergue elementos para uma retomada rápida.

O Estado de S.Paulo

11 Junho 2016 | 05h00

A pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) e coordenadora do boletim que traz as principais projeções da entidade, Silvia Matos, está nesse segundo grupo. Segundo ela, a retração do Produto Interno Bruto (PIB) de 2016 será de 3,5%, e pensar em recuperação consistente em 2017 é difícil. A economista prevê para o próximo ano um avanço tímido, de 0,5%. “Depois da mudança no governo, e até antes, diante da probabilidade de mudança de governo, a gente teve queda de risco país e uma valorização cambial (queda do dólar)”, afirma. “São os primeiros sinais favoráveis de uma economia começando a querer se reerguer. Agora, é importante tomar fôlego.”

Para que isso aconteça, o governo precisa conseguir aprovar projetos importantes no Congresso, como a PEC que impõe um limite para os gastos públicos. Ainda assim, diz Silvia, há eventos econômicos que dificultam uma retomada maior.

Com um olhar mais otimista, o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, melhorou suas projeções para a economia brasileira. Ele estima um crescimento de 2% para o ano que vem – isso, se Dilma Rousseff não voltar ao governo e se a Operação Lava Jato não respingar no presidente Temer. “Podemos chegar ao final de 2016, no quarto trimestre, com números começando a ficar positivos, apesar de eu acreditar que essa mudança é mais para o começo de 2017”, afirma. “Mas os números vão começar a ficar azuis provavelmente no quarto trimestre.”

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Vinícius Neder, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2016 | 05h00

RIO - A votação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que limita o crescimento das despesas públicas será essencial para demonstrar se o fôlego dado à economia com a troca de governo será curto ou duradouro, diz Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) e coordenadora do boletim que traz as principais projeções da entidade. Ainda que o fôlego seja maior, é cedo para comemorar. Para ela, a retração do PIB de 2016 será de 3,5% e pensar em recuperação consistente em 2017 é difícil. Ano que vem, é possível avançar 0,5%. Se a casa for arrumada na economia, é possível crescer de 1,5% a 2% em 2018.

Qual é o cenário para 2016?

Deu uma melhorada, porque os dados estão vindo melhores. O mercado estava até com quedas acima de 4% (no PIB). Nosso número é de 3,5% e pode vir um pouco melhor.

A melhora de perspectiva tem a ver com o novo governo?

Nossos indicadores de confiança, principalmente da indústria de transformação, têm mostrado uma melhora um pouco mais forte agora nos últimos meses. A confiança reflete o mercado de ativos. Depois da mudança no governo, e até antes, diante da probabilidade de mudança de governo, a gente teve queda de risco país e uma valorização cambial (queda do dólar). São os primeiros sinais favoráveis de uma economia começando a querer se reerguer. Agora, é importante tomar fôlego.

O fôlego é curto ou duradouro?

Você precisa ter continuidade de melhora política para ele se tornar mais duradouro. De alguma forma, mesmo com dificuldade, o governo está conseguindo passar algumas coisas no Congresso. Não são grandes batalhas, mas estávamos numa paralisia. A questão da PEC (que impõe limite) dos gastos (públicos) é mais difícil um pouco. A cada semana a gente consegue avaliar melhor esse fôlego do governo.

Os riscos são só políticos?

Independente disso, eu não seria tão otimista com a economia brasileira. Há eventos econômicos que dificultam uma retomada maior. Primeiro, está o mercado de trabalho, que demora para melhorar. Quem está melhorando é a indústria, que tem números de horas trabalhadas ainda lá embaixo. Ou seja, antes de voltar a contratar pessoas para aumentar a produção, ela tem espaço enorme para usar novos turnos, para produzir mais sem usar muita mão de obra. A ideia é que a contratação formal ainda será negativa este ano. A taxa de desemprego deve piorar ainda este ano e, no ano que vem, deve melhorar muito pouco. Isso arrasta o consumo das famílias.

Há mais entraves econômicos?

O crédito. A gente tem visto uma inflação ainda muito resistente, mesmo com essa brutal recessão. O novo BC (Ilan Goldfajn foi empossado como presidente do Banco Central na quinta-feira) está preocupado em realmente debelar a inflação, mas essa tarefa ficou para 2017. Neste momento, o melhor é tentar reduzir a inflação ao máximo. Não é preciso cravar a meta, mas ela precisa convergir para o mais próximo possível. Isso dificulta muito a recuperação da economia. No nosso cenário, a queda de juros é muito menor. Só vai cair o juro quando a inflação ceder. Se a gente estivesse com a economia lá embaixo, só que com a inflação na meta, era fácil (a economia se recuperar).

E os gastos públicos?

Para a gente ter queda de risco país, o câmbio se valorizar e o juro cair, a política fiscal é essencial. Essa medida de restrição de gastos não vai resolver nossos problemas no curtíssimo prazo, mas traz a possibilidade de que, em algum momento, com a economia se recuperando aos poucos, haja uma redução do déficit.

A questão fiscal é a mais associada à crise política, não?

Ao mesmo tempo que a gente está conseguindo passar algumas medidas, fico receosa de (o governo) não conseguir (aprovar a PEC que cria o teto nos gastos). Não passar essa medida é um sinal péssimo. Aí a gente pode ir para um cenário muito pior.

Essa votação é fundamental para dar fôlego à economia?

Sim, porque pela primeira vez realmente a gente vai colocar uma trava no gasto.

O setor externo pode ajudar?

Embora os Estados Unidos tenham postergado a subida de juros, eles podem subir no segundo semestre. Outra coisa que tem nos preocupado é que o quantum (quantidade de produtos exportados) do comércio mundial está muito fraco. A economia mundial está fraquejando. O cenário internacional pode ser mais favorável para a gente, mas não dá para contar com ele.

Uma volta de Dilma Rousseff ao cargo pode piorar tudo?

Geraria uma incerteza muito grande, porque tem a probabilidade de ter uma política econômica muito diferente da atual. O cenário da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), de -4,3% este ano e -2% ano que vem (a entidade lançou relatório prevendo retração da economia brasileira até 2017), é possível se houver essa volta.

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‘Podemos ter números começando a ficar azuis no fim do ano’

Vale condiciona, porém, a recuperação daeconomia brasileira à saída definitiva de Dilma Rousseff do governo

Entrevista com

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2016 | 05h00

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, melhorou as projeções para a economia brasileira até 2018. Agora, espera crescimento de 2% para 2017, ante uma estimativa anterior de avanço de apenas 0,6%. As novas projeções consideram a saída definitiva da presidente Dilma Rousseff e a melhora na confiança por conta da nova equipe econômica do presidente em exercício Michel Temer. Os fatores de risco seriam a volta de Dilma ao governo e algum respingo político em Temer da operação Lava Jato. Neste último caso, a situação ficaria politicamente mais complicada, diz. Já a volta de Dilma jogaria a economia “novamente no buraco”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que mudou nas expectativas desde a posse do presidente em exercício Michel Temer?

Mudou bastante coisa. Temos uma perspectiva mais positiva do que tínhamos alguns meses atrás. Um grande elemento de dificuldade, que era a presidente Dilma Rousseff, com a toda a dificuldade que tinha de negociar com o Congresso, de colocar um ritmo relevante de política econômica. Isso saiu do radar. Ao mesmo tempo, o Temer montou uma equipe excepcional, colocando algumas regras que foram, especialmente na política fiscal, dando um sinal mais importante ainda de se conseguir aprovar medidas no Congresso. Isso dá uma perspectiva positiva para um governo que está começando. Mas há alguns entraves. A primeira coisa é que temos de ter a certeza de que a presidente vai sair. Trabalhamos com o cenário que ela saia e não volte.

Qual foi o fator que levou a essa mudança de expectativa: a saída da presidente Dilma Rousseff ou alguma decisão que o presidente em exercício Michel Temer tomou?

Acho que são as duas coisas. A saída dela em si foi extremamente importante. Quando se olha em momentos do passado da economia brasileira, é possível observar uma reação. Com a saída do presidente Fernando Collor (1990-1992) houve uma reação. No momento da crise mais profunda, entre abril e setembro de 1992, a produção industrial caía 10% ao mês. Com a sua saída, dois meses depois estava crescendo 10%, sem ter tido nenhuma grande mudança de política econômica. Apenas por uma questão de confiança, de mudança da liderança política.

Entre as medidas que estão mudando as expectativas, qual o sr. destacaria?

Acho que a mais importante para dar o sentido de recuperação da economia à frente foi a regra que prevê que o crescimento do gasto público seja igual ao crescimento da inflação do ano anterior. É essencial ter regras fiscais e começar a implementar isso agora.

Considerando o seu cenário básico de que a presidente não retorne, o sr. mudou projeções de crescimento do PIB?

Nesse cenário que ela não volte, teremos uma queda de 3,3% de PIB este ano, em 2017 sobe 2% e em 2018 cresce 1,7%. O crescimento um pouco maior em 2017 seria por conta do efeito rebote, após dois anos e meio de recessão.

Quais eram as projeções?

Queda de 4,1% este ano, crescimento de 0,6% em 2017 e de 0,3% em 2018. O ponto central é que tanto em 2017 como em 2018 podem ocorrer surpresas positivas. Justamente se olharmos a história. O Collor é um exemplo bastante importante nesse sentido. O efeito confiança da saída de uma presidente que não funcionava é muito grande. Agora, para isso dar certo, primeiro a presidente não pode voltar. Seria retomar um ciclo de caos na economia que estávamos até o começo deste ano. Outra coisa é não ter mais nenhum respingo político em cima do presidente Temer. Se aparecer alguma coisa da Lava Jato envolvendo especificamente o nome dele, a situação fica politicamente mais complicada.

Há indicadores mostrando recuperação da economia?

Alguns indicadores de confiança começaram a melhorar gradativamente. Mas nos dados de atividade ainda não deu tempo de aparecer. Não teremos reversão drástica nos próximos meses porque justamente há o risco político. Até o 3.º trimestre, vamos ter uma recuperação muito lenta. Não vai ocorrer um movimento drástico, como no Collor. Naquela época, em dois meses houve uma virada, pois ele saiu imediatamente.

O sr. acha que a economia bateu no fundo do poço?

O resultado do PIB do 4.º trimestre de 2015 provavelmente foi o pior momento. Tivemos um 1.º trimestre melhor do que se imaginava. Se a saída da presidente se confirmar, o 2.º trimestre tende a ser ainda melhor. E confirmando que ela não volte, no 3.º trimestre, a chance de ter uma recuperação importante será muito grande. Podemos chegar ao final de 2016, no 4.º trimestre, com números começando a ficar azuis. Apesar de eu acreditar que essa mudança é mais para o começo de 2017.

O sr. está otimista?

Eu estava bastante pessimista antes, com a presidente Dilma Rousseff. Agora estou num momento realista. E o realismo vem pelas condições dadas.

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