Fabrice Coffrine/AFP - 12/4/2018
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Juros

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Roberto Azevêdo confirma renúncia ao comando da OMC, um ano antes do fim de seu mandato

Saída do brasileiro deve dar mais poder a Donald Trump sobre quem vai gerir a entidade de comércio, que vem perdendo relevância em meio à defesa de menor globalização por alguns líderes; decisão é pessoal, segundo Azevêdo, e não se deve a problemas de saúde

André Marinho e Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2020 | 09h09

SÃO PAULO e LONDRES - O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, confirmou, em reunião virtual com membros da entidade, nesta quinta-feira, 14, que deixará o cargo no próximo dia 31 de agosto, um ano antes do previsto. O brasileiro disse que a decisão busca dar mais tempo para que o órgão escolha seu sucessor, sem que o processo dispute atenção com os preparativos para a 12.° Reunião Ministerial (MC12, na sigla em inglês), que acontecerá em 2021.

"Essa é uma decisão pessoal - uma decisão familiar - e estou convencido de que ela serve os melhores interesses desta Organização", afirmou, esclarecendo que não tem nenhum problema de saúde nem pretende obter ganhos políticos com isso.

Pelas regras da instituição, a escolha do novo diretor-geral começaria em dezembro e provavelmente dominaria o primeiro trimestre de 2021, de acordo com Azevêdo. "Esse calendário prejudicaria claramente o trabalho preparatório para o MC12, independentemente de ser realizado no verão do hemisfério norte ou no final do ano", destacou.

Ele defendeu que o órgão continue a trabalhar nas reformas, em meio à paralisia provocada por críticas de vários países, sobretudo os Estados Unidos. "Sabemos que a OMC não pode ficar paralisada enquanto o mundo a sua volta muda profundamente. Garantir que a OMC continue a responder às necessidades e prioridades dos membros é um imperativo, não uma opção", salientou. Segundo Azevêdo, a reunião do conselho-geral da entidade, marcada para amanhã, não será sobre sua renúncia.

A Organização deve se pronunciar sobre a saídaa de Azevêdo ainda nesta tarde, segundo o porta-voz da entidade, Keith Rockwell. "A OMC anunciará esse assunto após a reunião dos chefes de delegação às 16h, pelo horário de Genebra. Até lá, o secretariado da OMC não comentará", informou a instituição oficialmente.

Rusgas com Trump

Reconhecido pelo profissionalismo e com uma grande rede de contatos, o brasileiro vem enfrentando rusgas com o governo do presidente americano, Donald Trump, que tem colocado uma série de barreiras para que avanços sejam feitos na instituição.

Nos últimos eventos internacionais dos quais participou presencialmente, o Estadão/Broadcast identificou que Azevêdo vinha tentando manter um posicionamento otimista em relação a avanços na mudança de estrutura da OMC, mas não conseguia, apesar do discurso positivo, esconder o desânimo com alguma possibilidade real de avanços serem feitos. A discrição sempre foi uma marca do diretor, que é diplomata.

A pandemia de coronavírus foi a "gota d'água que faltava para que o copo transbordasse", segundo uma fonte, e o diretor chegasse à conclusão de que sua saída da instituição poderia até mesmo abrir caminhos para que ela possa progredir.

A covid-19 praticamente estancou o comércio internacional, que já passava por um momento de grande tensão antes do início da propagação da doença, com a guerra comercial entre Estados Unidos e China. Azevêdo está no comando da OMC desde 2013, mas a entidade vem perdendo relevância em meio à defesa de menor globalização por alguns líderes mundiais.

Trump chegou a culpar a Organização por supostamente permitir que a China atuasse de forma desleal em relação ao comércio internacional. Desde o ano passado, o órgão de apelação da OMC está simplesmente paralisado, sem atuar, porque os Estados Unidos barraram a nomeação de novos juízes para substituírem os que se aposentaram. O órgão é o braço mais importante no processo de busca por soluções de controvérsias.

Com a crise do coronavírus, a Organização também se mostrou pouco atuante, apesar de vários governos - inclusive o Brasil - terem tomado decisões de fechar exportações de alguns produtos médico-hospitalares, o que foi de encontro ao pedido de outra entidade que tem sede em Genebra: a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Com a confirmação da decisão de Azevêdo começará todo um trâmite para nomear um substituto, o que pode levar meses. Em princípio, deve ser escolhido um interino para o cargo entre os funcionários que já atuam na instituição.

A saída do brasileiro representará mais poder de Trump sobre quem vai gerir a Organização - e de que forma. Esse é um tema que preocupa um dos interlocutores com os quais o Estadão/Broadcast conversou nesta quinta sobre o tema.

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