Roberto Campos, 100 anos

Homem de cultura refinada, notável senso de humor e extraordinária visão do seu tempo, ele soube evoluir em seu pensamento e manter-se contemporâneo

Josef Barat*, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2017 | 05h00

Este ano marca o centenário de nascimento de Roberto Campos. Num país tradicionalmente pobre de homens e ideias, tivemos uma geração brilhante de pensadores na Economia: Celso Furtado, Inácio Rangel, João Paulo de Almeida Magalhães, Antônio Dias Leite, Mário Henrique Simonsen, Reis Velloso e Antônio Delfim Netto. Mas Campos teve uma posição privilegiada nesta plêiade de economistas. Homem de cultura refinada, notável senso de humor e extraordinária visão do seu tempo, ele soube evoluir em seu pensamento e manter-se contemporâneo.

Foi rotulado de “entreguista” e “reacionário” (na época não havia o epíteto neoliberal) pelos suspeitos de sempre. Era o Bob Fields. Mas, nas posições que ocupou, conseguiu avanços e conquistas econômicas e sociais que poderiam calar a boca de seus detratores. Em sua trajetória como diplomata, esteve na delegação brasileira em Bretton Woods, onde se definiram os parâmetros da nova ordem mundial do pós-guerra. De volta ao Brasil, participou da criação do BNDE, do qual foi presidente, e teve importante papel no esforço de industrialização do governo Kubitschek. O espírito da época era o do Estado desenvolvimentista, apoio à indústria nacional pelas reservas de mercado e nacionalismo presente nos pronunciamentos oficiais.

Neste contexto, as preocupações relacionadas à inflação, ao déficit público e à crescente presença do Estado eram desprezadas. Algo para infernizar o ministro da Fazenda, mas que não poderiam deter o desenvolvimento. Não foi, pois, por acaso que tivemos uma sucessão de crises que associaram inflação elevada e baixos níveis de crescimento. Roberto Campos foi daqueles que anteviram os desastres e que firmou a convicção de que o desenvolvimento sustentado no longo prazo depende da preservação de fundamentos macroeconômicos, entre eles o equilíbrio fiscal e o controle dos gastos públicos. Além disso, uma economia fechada e protegida não resistiria à crescente competição internacional.

Pensar assim representava, na época, um pensamento “de direita”, monetarista, em contraposição às virtudes do pensamento “de esquerda”, desenvolvimentista. Essa clivagem no debate econômico se radicalizou, acabando por predominar o desenvolvimentismo, que encantou civis e militares. Encantamento que tornou impossível controlar o crescimento pantagruélico do Estado. Como ministro do Planejamento do governo Castelo Branco, Campos teve presença importante em mudanças radicais de natureza econômica, social e institucional. Entre outras, a criação do FGTS, sua vinculação a programas habitacionais do BNH, as bases da reforma agrária, o controle da inflação e do déficit público e os alicerces do futuro “milagre brasileiro”.

Mas o Brasil nunca suportou por muito tempo a prevalência da razão. Reformas econômicas, políticas de estabilização monetária e contenção do déficit público são aceitas no curto tempo do desespero. Depois vem sempre um longo período de irresponsabilidade fiscal, falta de racionalidade nos gastos públicos, recrudescimento da inflação e baixo crescimento. Os desenvolvimentistas conseguem, inclusive, a proeza de estancar o crescimento. O grande economista e pensador de esquerda Inácio Rangel reconheceu a incapacidade de o Estado ter o papel de tal predominância na indução do desenvolvimento, pela notória incapacidade de investir. Defendeu, nos anos 80, a necessidade de adotar as concessões ao setor privado para a recuperação e expansão das infraestruturas e dos serviços públicos. Assim, do ponto de vista do pensamento econômico, Rangel e Campos estiveram próximos no começo, afastaram-se em suas trajetórias e voltaram a estar próximos ao final. Entre outras bossas, são coisas nossas... difícil de ser entendidas por mentes estreitas.

Enquanto nossos nacionalistas se fixavam no discurso da defesa dos recursos naturais, Campos profeticamente dizia que “mais importante que as riquezas naturais são as riquezas artificiais da educação e tecnologia”. Muita gente que se diz “progressista” não entendeu isso até hoje.

*economista

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