Robô especializado ganha espaço na indústria

Modernas máquinas têm sido usadas não só na produção, mas também na distribuição

JOHN MARKOFF , THE NEW YORK TIMES , DRACHTEN, HOLANDA, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2012 | 03h06

Na fábrica da Philips Electronics no litoral da China, centenas de trabalhadores usam suas cabeças e ferramentas especializadas para montar barbeadores elétricos. Essa é a maneira antiga. Numa fábrica irmã no interior da Holanda, 128 braços robóticos fazem o mesmo trabalho com uma flexibilidade de praticante ioga.

Câmeras de vídeo os guiam por feitos muito além da capacidade do mais hábil dos humanos. Um braço robótico molda continuamente três dobras perfeitas em dois fios conectores e os introduz em orifícios pequenos demais para a percepção de um olho humano. Os braços trabalham tão rápido que precisam ser encerrados em gaiolas de vidro para evitar que as pessoas que os supervisionam se machuquem. E eles fazem tudo isso sem parada para o café - três turnos por dia, 365 dias por ano.

No total, a fábrica aqui tem várias dezenas de trabalhadores por turno, cerca de um décimo dos que operam na fábrica da cidade chinesa de Zhuhai.

Esse é o futuro. Uma nova onda de robôs, muito mais especializados do que os atualmente em uso em montadoras de carros e outras indústrias pesadas, está substituindo trabalhadores por todo o mundo, tanto na fabricação como na distribuição. Fábricas como esta na Holanda são um chocante contraponto às usadas pela Apple e outras gigantes de eletrônicos de consumo que empregam centenas de milhares de trabalhadores pouco especializados. "Com essas máquinas, podemos fazer qualquer aparelho de consumo no mundo", disse Binne Visser, um engenheiro elétrico que gere a linha de montagem em Drachten.

Muitos executivos e especialistas em tecnologia do setor dizem que a abordagem da Philips está ganhando terreno na Apple. Embora a Foxconn, fabricante do iPhone da Apple, continue a montar fábricas e contratar milhares de trabalhadores adicionais para produzir smartphones, ela pretende instalar mais de 1 milhão de robôs dentro de alguns anos para suplementar sua força de trabalho na China.

A Foxconn não revelou quantos trabalhadores serão desalojados, nem quando. Mas seu presidente, Terry Gou, endossou o uso crescente de robôs. Falando dos mais de 1 milhão de empregados em escala mundial, ele disse em janeiro, segundo a agência de notícias oficial Xinhua (Nova China): "Como os seres humanos são também animais, gerir 1 milhão de animais me dá uma dor de cabeça".

Ameaça. Os custos em queda e a sofisticação crescente de robôs reacenderam o debate entre economistas e tecnólogos sobre a rapidez como os empregos desaparecerão. Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, economistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, defenderam uma transformação rápida. "O ritmo e escala dessa intrusão em habilidades humanas é relativamente recente e tem implicações econômicas profundas."

No seu entender, o advento da automação a baixo custo preconiza mudanças na escala da revolução na tecnologia agrícola durante o século passado, quando o emprego agrícola nos Estados Unidos caiu de 40% da força de trabalho para cerca de 2% hoje. A analogia não é apenas com a industrialização da agricultura, mas também com a eletrificação da fabricação industrial no século passado, argumenta McAfee.

"Em que ponto a serra elétrica substitui Paul Bunyan?" perguntou Mike Dennison, executivo da Flextronics, fabricante de produtos eletrônicos baseada no Vale do Silício e que está automatizando cada vez mais as operações de montagem. "Sempre há um ponto de preço, e estamos muito perto desse ponto."

Mas Bran Ferren, um veterano em robótica e designer de produtos industriais na Applied Minds em Glendale, Califórnia, argumenta que ainda há obstáculos que podem tornar elusivo o sonho do robô montador universal. "Eu fui inicialmente muito ingênuo sobre robôs universais que poderiam fazer de tudo", disse ele. "É preciso ter pessoas por perto de algum modo. E as pessoas são muito boas em imaginar como encaixar um radiador ou fixar uma mangueira. E essas coisas ainda são difíceis para os robôs fazerem."

Além dos desafios técnicos, existe a resistência de trabalhadores sindicalizados e de comunidades preocupados com os empregos. A ascensão de robôs pode significar uma diminuição da criação de empregos neste país, apesar de os crescentes custos de mão de obra e transporte na Ásia e os receios de roubo de propriedade intelectual estarem agora trazendo alguns trabalhos de volta ao Ocidente.

Tome-se o caso da cavernosa fábrica de painéis solares gerida pela Flextronics em Milpitas, ao sul de San Francisco. Um grande banner proclama orgulhosamente: "Trazendo empregos e fabricação de volta à Califórnia!" (Hoje em dia, a China produz uma grande parte dos painéis solares usados neste país e está automatizando seu próprio setor.)

No entanto, na fábrica ultramoderna, onde a linha de montagem opera 24 horas por dia, sete dias por semana, há robôs por toda parte e poucos humanos. Todo o trabalho de levantamento pesado e quase todo o trabalho de precisão é feito por robôs, que enfileiram células solares e as selam sob vidro. Os trabalhadores humanos fazem coisas como desbastar excessos de material, passar fios e aparafusar uma porção de encaixes numa armação simples para cada painel.

Precisão. O rápido aprimoramento das tecnologias de visão e toque está ampliando o leque de empregos manuais nas habilidades de robôs. Os jatos comerciais de grande porte já estão sendo rebitados por máquinas gigantes que se movem com rapidez e precisão. Mesmo com essas máquinas, a companhia disse que tem dificuldade para encontrar trabalhadores suficientes para fazer seu novo avião 787.

E na Earthbound Farms, na Califórnia, quatro braços robóticos recém-instalados com copos de sucção customizados colocam rapidamente os recipientes em concha de alface orgânico em caixas para despacho. Os robôs se movem mais rapidamente que as pessoas que substituíram. Cada robô substitui dois a cinco trabalhadores na Earthbound, segundo John Dulchinos, engenheiro que é presidente executivo da Adept Technology, uma fabricante de robôs em Pleasanton, Califórnia, que desenvolveu o sistema da Earthbound.

Os fabricantes de robôs nos Estados Unidos dizem que, em muitas aplicações, os robôs já oferecem um custo-benefício melhor que os humanos. Numa feira de automação em Chicago, Ron Potter, diretor de tecnologia robótica na empresa de consultoria Factory Automation Systems, de Atlanta, ofereceu uma planilha para calcular a rapidez com que os robôs se pagariam. Em um exemplo, um sistema de robótica custou inicialmente US$ 250 mil e substituiu dois operadores de máquinas, cada um ganhando US$ 50 mil por ano. Em 15 anos de vida do sistema, as máquinas renderem US$ 3,5 milhões em produtividade e economia de mão de obra. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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